espera

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Eu acordei fazendo uma careta. Sei, pois é a primeira coisa que eu faço todas as manhãs, já que desperto com a maldita dor no estômago. O que eu tenho no estômago? Não sei. E não vou ao médico exatamente pra não saber. Mas ela passa rápido. Assim que eu levanto, em uns 10 minutos, estou bem novamente. Sei que isso não é desculpa pra não me tratar, mas sinceramente eu não estou ligando.
Levantei-me e curvei o corpo na pequena pia que fica ao lado da cama. Joguei água no rosto e encarei o espelho. Rugas. Várias linhas no rosto. Na cabeça, parcos cabelos grisalhos nas têmporas, dando espaço pra a careca reluzente. 52 primaveras, dizia a minha vizinha. 52 malditas primaveras eu carrego no corpo. Mas ele ainda funciona.
Vesti a calça e a camisa de botão. Abri um pouco a janela e vi o sol iluminar tudo. As pessoas, na rua, com caras mal humoradas, andavam apressadas. Sai e tranquei a porta. Cumpriria minha rotina andando dois quarteirões até a padaria onde eu sempre tomo café. No caminho cumprimentei e fui cumprimentado pelas mesmas pessoas de todos os dias. Incluindo as mesmas que eu sequer sabia quem eram.

o lamento de Susanna

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Era o terceiro dia que Susanna estava naquela cidade e a igreja abandonada sempre despertava sua curiosidade. Ela voltaria para casa em dois dias e seus olhos e a lente de sua câmera ansiavam em poder fotografar o interior daquele prédio.

Quando perguntou a sua tia, cuja casa lhe estava servindo de lar naqueles dias, ela desconversou e disse que lá era um lugar proibido. Isso só fez a vontade de Susanna entrar lá, crescer mais e mais.
Neste dia, quando o sol estava prestes a se por ela caminhava do lado da igreja. A câmera na mão, um vestido esvoaçante e um brilho no olhar que poucas vezes lhe animava o semblante. A rua estava deserta e sua cabeça rapidamente começou a trabalhar. Havia um nicho no muro dos fundos; ela correu até ele e,com um pouco de dificuldade conseguiu passar, mas não sem arranhar sua perna e o lado de sua câmera.

Musgos, trepadeiras e todo tipo de erva daninha invadiam cada canto da fachada e dos muros do prédio. Ela ouviu pequenos animais correrem ante suas passadas. Rodeou o lugar e subiu a escadaria que dava para a porta principal. Para sua surpresa a grande porta estava entreaberta. Parecia que tudo aquilo fora abandona às pressas. A porta rangeu quando ela empurrou e uma camada de poeira caiu sobre si.

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o presente

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O sol estava prestes a se pôr. Ele estacionou na primeira vaga que viu. Havia saído a pouco tempo do trabalho, os amigos o tinham convidado para comer uma pizza, mas ele recusou educadamente, já que hoje era um dia especial e ele precisava fazer uma coisa. Saiu do carro e caminhou do estacionamento até a entrada do shopping.
Hoje estava completando um ano de casamento. Ele o conhecera num aniversário de uma amiga da empresa. Isso foi há dois anos. Compartilharam vários gostos em comum. Começaram uma amizade profunda, combinavam de sair sempre e essa amizade colorida finalmente se transformou em um namoro. Seis meses depois os dois estavam morando juntos. A felicidade finalmente fora consumada para ambos. O casamento foi não só a coisa mais importante que aconteceu na vida deles, mas também foi uma vitória contra o preconceito de que ainda eram vítimas por parte da família.
Eles haviam combinado naquele dia de irem jantar num de seus restaurantes prediletos, mas antes ele iria comprar um presente especial para o amor da sua vida. Uma roupa seria o mais ideal, já que o enchera de livros, perfumes e outras coisas das quais ele não precisava no momento. Mas também não conseguiu tirar da mente a curiosidade do presente que ele lhe daria. Por essa hora ele também estava saindo do trabalho e já estava chegando em casa, dessa forma lhe faria uma surpresa.