a fome

labio-morder
Eu a amei com algo muito maior que o próprio amor. Não havia definição. Eu necessitava dela mais que qualquer coisa no mundo. Era maior que paixão, maior que possessão, maior que obsessão. Era, e assim eu passei a chamar, fome.
A conheci numa palestra sobre mídias sociais. Eu, engenheiro em aplicativos de computação. Ela, web designer. Aqueles cabelos vermelhos e aquela tatuagem nas costas logo me chamaram a atenção. Era amiga de uma amiga minha, então a apresentação foi fácil e a atração foi rápida. No dia seguinte eu e ela estávamos tomando café depois de uma sessão de cinema. Tínhamos muito em comum e a conversa fluía naturalmente, com interesses que ambos compartilhavam. Passamos a nos encontrar com mais frequência. Nos sentíamos adolescentes apaixonados. Ríamos muito juntos e a cada vez que ela parecia se irritar com algo que eu fazia, prontamente eu tentava consertar a situação. A enchi de presentes, de mimos e também inflei seu ego. Então eu vi uma fome dentro de mim crescer e se tornar insaciável.
Logo dei um jeito de morarmos juntos. Ela deixou a casa da mãe e passamos a desfrutar de um apartamento só nosso, com vista para a praia. Eu a convenci a deixar o emprego, já que meu salário sustentava tranquilamente os dois e, como eu trabalhava em casa, teríamos mais tempo juntos. Claro que ela adorou a ideia. Eu, mais ainda. Nossos dias passaram a ser a realização de um sonho para mim. Deitava e acordava com ela do meu lado. Seu cheiro, seu gosto, sua presença. Tudo nela me encantava. Mas eu comecei a ver que isso não era suficiente. Transávamos todos os dias, quase todo o tempo. Ela era fogosa e eu, um tarado. Precisava sentir sua pele, seu gosto, seu interior úmido e macio. Batizamos praticamente todos os cômodos e móveis do apartamento. Ela era incansável, mas eu era mais ainda. Por vezes ela dormiu em cima de mim de exaustão, no meio da transa, mas eu não me importava. A tinha ali em meus braços. Pra sempre.

revelações

Homosexualismo-275x300
Se tem uma coisa que eu aprendi nesses setenta e cinco anos foi que não importa a idade, distância, ou mesmo a quantidade de mágoa que nos causou. Nosso filho sempre será nosso filhinho. Mesmo que a quantidade de rugas em seu rosto seja proporcional ao seu. Mesmo que os cabelos brancos dele não estejam encobertos por tintura, como os seus. Não importa quantas palavras ele pronunciou e veio até mim como setas pontiagudas que propagaram a mágoa profunda dentro de mim. Não importa.
E das maiores dores dessa vida, creio que essa se sobressaia a todas que eu já tive, está a de ver ou ouvir seu filho chorar, em qualquer idade, e sentir sua impotência ante isso. E eu senti. Eram três horas da manhã quando fui acordado, num pulo, pelo meu telefone tocando. A voz do outro lado, embargada, tropeçando nas palavras, era do meu filho, quarenta e cinco anos, que morava dois bairros próximo ao meu. Das palavras que eu consegui compreender, ele queria conversar comigo, pessoalmente, então perguntou se eu estaria em casa pela manhã. Então ele disse que viria bem cedo para falar comigo sobre algo muito importante e que o estava perturbando. Tentei adiantar o assunto, mas ele insistiu que pessoalmente seria melhor, então o acalmei e coloquei o fone no gancho. Mesmo preocupado, meus ossos cansados me fizeram adormecer rapidamente.