diálogo sobre a felicidade

- moça, você conhece a felicidade?
- Uma vez ouvi dizer que a felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico. Mas de durável eu só conheço a melancolia. E de equilíbrio eu nunca entendi.
- eu conheci a felicidade. durou pouco tempo. meses pra ser exato. mas sobrevivi. por isso não recomendo.
ela parece vírus, sabe? suga tudo de você. e o que sobra? só isso que você é. tristeza.
- Não parece boa…
A felicidade sempre foi uma personagem fictícia que eu nunca quis conhecer. Dizem que ela te faz experimentar o gostinho do paraíso e se imortaliza num inferno que lança pelos ares chamas de lembranças.
Parece um tanto demoníaca essa tal felicidade. Um adorno que as pessoas usam para ocultar sua verdadeira essência.
- você tem total razão. sabe, dizem que o que mais atrai felicidade é o amor, mas sempre duvidei, já que esse sempre rimou perfeitamente com dor.
- Se a felicidade é uma das facetas do amor, eu não a conheci. Comigo o amor nunca foi dicotômico.Sempre foi clichê e desprovido de poesia. Dizem que não se fazem poemas com uma só rima.
- felicidade é névoa. é chuva passageira. daquelas finas que a gente pensa que vai refrescar, mas na verdade vai só molhar e fazer subir a aridez da vida, nos dando dor na garganta.
- Se a felicidade é tão ilusória assim, isso só me confirma quão iludidas as pessoas são. Todos cavalos com rédeas e viseiras, inibidos de visão.
- sim, felicidade é um corpo estranho em cada retina. não nos adaptamos a ela. pelo jeito a forçamos a fazer parte de nós. tentamos encaixar um circulo em um quadrado. mas é de nós mesmos, almas insatisfeitas. se nosso natural fosse a felicidade, buscaríamos a tristeza como nômades sedentos por água. temos essa ambição de ser algo que não somos, de ter sempre algo que não temos. queremos, não importa se sirva, se encaixa. vai parecer roupa com número maior, que sempre estaremos erguendo, ajeitando pra não cair, mas está na moda e, por mais ridículo que seja, todos querem usar. ser feliz está na moda.
- Se a felicidade está na moda, o mundo está alienado. Os que não podem ter, morrem sem ter conquistado. Aqueles que conquistaram, deixam-na jogada num lado.
Está na moda vestir essa máscara e ocultar sua verdadeira essência, mas meu amigo, ainda bem que eu nunca fui ligada a tendências.
- nem eu. minha única tendência é permanecer. mas veja, tem salvadores em cada esquina. tem livros de auto ajuda, sites de relacionamentos, curas, métodos, segredos para a felicidade aos montes. sair na rua é afogar-se no desejo dos outros de ser feliz. de te fazer feliz. e nós, náufragos da melancolia. são as mesmas pessoas que postergam o que tem dentro de si inerentemente. substituem, ou tentam, seu cinza peculiar pelas cores vivas das promessas. felicidade é ignorar? é não pensar? é deixar de lado o que está diante de seus olhos e abrir essa cicatriz no rosto que chamam de sorriso ante tudo o que tenta te fazer esquecer?
- Ser feliz é essa eterna tentativa frustrada. Tentamos trocar o nosso cinza pelas cores vivas das promessas mesmo sabendo que essas cores sempre desbotam.
Já me deixei iludir, acho que a felicidade quase me pegou uma vez.
Mas hoje, por mais acostumada que eu esteja com o sol, sempre estarei à espera da tempestade. Eu sou cinza, moço. Eu sou cinza. E tudo que é cinza já conheceu a dor de ser incendiado por uma chama. Isso explica os meus traumas.
Tenho medo de tudo que brilha demais, tem cores demais. Por isso sempre coloco minhas mãos em posição de defesa e fecho meus olhos quando a felicidade se aproxima. Porque meu arco-íris moço, é um degradê de cinza.
- felicidade seria esquecer de mim. eis ai minha impossibilidade de ser feliz. eis nossa impossibilidade de ser felizes. não importa o que tentemos usar pra aliviar. estamos sós. sempre estamos sós.

olhar perdido

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O relato a seguir foi contado a mim por um homem que conheci há um ano. Na época eu estava cuidando de um familiar que ficou hospitalizado e o encontrei no mesmo quarto com meu parente e mais duas pessoas. O leito dele ficava perto da janela. Estava com os olhos enfaixados e nunca recebia visita. Comecei a ficar curioso com ele. Tinha uns 35 anos, cabelos grisalhos, corpo fino e nariz adunco. Para uma pessoa que não estava conseguindo ver, ele demonstrava muita naturalidade em se adaptar à sua atual situação e muita destreza, principalmente na hora das refeições, quando sequer precisava de ajuda. Aproximei-me dele certo dia, quando meu familiar estava dormindo, e aproveitei pra puxar conversa. O que ele me contou nunca mais saiu da minha cabeça. Disse-lhe que eu costumava escrever alguns contos na internet e perguntei se poderia contar a sua história pro mundo. Ele consentiu e eu decidi, lembrando com detalhes de tudo o que ele havia dito, escrever em primeira pessoa. A partir daqui vou lhe contar como esse homem foi parar no hospital. A partir daqui você saberá a história desse homem que, ao falar de sua experiência, virou o rosto na direção da janela como se olhasse para o horizonte, numa mirada perdida.

“Nunca fui uma pessoa tímida. Na verdade sempre fui muito calado, na minha, mas não tinha timidez. Só não gostava muito de me relacionar com as pessoas, mas quando era preciso, eu o fazia naturalmente. A não ser por um ponto. Ponto esse que sempre foi motivo de reclamações por toda a minha vida. Meus pais sempre me alertavam para isso. Minha mãe certa vez chegou a me bater por causa disso. Eu não conseguia olhar para os olhos das pessoas.
Não é vergonha, não é timidez. Eu só acho desnecessário. Dizem que isso diz muito sobre você, que uma pessoa honesta sempre te olha nos olhos, etc… Besteira. Sou um homem honesto sem ter precisado encarar ninguém na vida. Acho até que esse encarar gera muitos problemas. Na escola, se alguém encarasse o outro já era motivo pra sair na porrada. E eu sempre achei ridículo isso. Mas não era isso que as pessoas pensavam.
“Olhe pra mim!”, gritava minha mãe. “Quando eu falar com você, olhe nos meus olhos.”, advertia-me a professora. “Olhe nos meus olhos”, disse minha primeira namorada. Mas eu não conseguia. Simplesmente não dava. Eu sempre desviava os olhos. Sempre atentava para outra coisa. Não que eu não prestasse atenção. Sempre fui atencioso. Não precisava olhar nos olhos das pessoas para entender o que elas estavam falando. Tanto que fui um bom aluno na escola, fui um ótimo orador na universidade e sou um exemplar funcionário na empresa em que trabalho. Mas as pessoas não são satisfeitas como eu. A questão de não olhar nos olhos continuava sendo um problema, não importava o quanto eu me saísse bem em algo.

lacrimosa

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“Ser ou não ser… Eis a questão. 
Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. 
Morrer… dormir… dormir… Talvez sonhar…”  Hamlet, Ato III, cena I

***
Você está acordado?
Para você essa pode parecer uma pergunta idiota, já que está lendo isso. Para mim não. Desde criança eu tenho certa dificuldade em discernir quando estou acordado ou dormindo. Minha mãe, em sonho, me pedia para fazer algo e no dia seguinte, tendo executado sua ordem onírica, ela reclamava, pois não tinha pedido tal coisa de verdade e até tinha atrapalhado-a. Na escola, quando meus professores passavam lição de casa, eu sonhava que fazia e acreditava tão piamente nisso que no dia seguinte ia para a escola com a lição por fazer, pois nem abria o caderno de tão convencido que estava de que ela estava pronta. Para mim, tudo nos sonhos era tão real quanto fora deles.
Faltei a vários compromissos na minha fase adulta e ainda falto, por pensar ter ido quando na verdade foi apenas um sonho. As pessoas passaram a não confiar em mim, pois se me diziam algo, nunca sabiam se eu faria na vida real ou num sonho. Eu procurei ajuda, fiz tratamento, mas nada deu resultado. Tive de me acostumar a essa vida espalhando pela casa bilhetes, despertadores, agendas eletrônicas, tudo o que pudesse me orientar para saber se estava acordado ou não e quais deveres eu estava ainda por concluir. Ainda hoje, eu vivo uma vida difícil.
Consegui me aposentar devido a essa minha dificuldade bem cedo. Atualmente eu trabalho na livraria de um velho amigo que, compreendendo minha situação e não querendo que eu vivesse solitário em casa, me deixou ajudá-lo, o que me fez muito bem. Aparentemente a rotina deu uma aliviada no meu problema e poucas vezes tive dificuldade com essa questão de não saber se estou dormindo ou acordado na livraria. Nem os livros sobre sonhos na sessão exotérica me ajudavam. para mim eles eram rasos demais para alguém com tanta intimidade com os sonhos. Mas claro que isso não durou muito tempo. Pois foi nesse lugar que eu a conheci.

as cinzas

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Ele detestava o sol. Para ele aquilo não tinha serventia alguma. Trazia apenas calor e queimaduras a sua pele. Além do clarão que lhe dava dor nos olhos; uma dor parecida com a que lhe causavam as cores das flores nos jardins onde ele passava caminhando. Preferia a chuva. Menos quando ela batia na sua janela. E também não gostava quando pingos caiam na sua cabeça, nem quando formava poças de água que o faziam molhar os pés. Pensando bem, ele também não gostava da chuva. Na verdade preferia o tempo nublado. Sem sol, sem chuva. Apenas aquele tom cinza que preenchia de melancolia todo o mundo. Ele gostava disso. Bem, pelo menos até agora.
           Aquela era uma manhã cinza, exatamente daquelas que o agradavam. Havia poucas pessoas na rua. Ele não gostava muito de pessoas. Preferia ficar em casa longe delas, mas seu médico o aconselhara a caminhar todos os dias. A idade já lhe alcançara. Sete décadas é tempo suficiente para você enjoar e cansar de tudo. No principio pensou em caminhar durante a madrugada, mas depois que o vizinho passou a querer acompanhá-lo no mesmo horário ele desistiu e resolveu caminhar exatamente na hora em que o vizinho estava no trabalho. Como não tinha escolha a não ser caminhar onde pessoas também caminhavam, ele, ao ver alguns jovens usando fones de ouvido enquanto iam para a escola, teve a mesma ideia e comprou os seus junto com um mp4 usado para ouvir a música que ele mais amava: a erudita. Na verdade ouvir música não era a única razão para ele usar os fones. Eles também serviam para não dar atenção para as pessoas na rua falando de suas vidas medíocres. Fazia sempre uma expressão de alienação para que as pessoas não o parassem para pedir informações. Noventa por cento das vezes dava certo.

toda segunda-feira tem mau hálito.

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Ontem acordei ao som de Lethe do Dark Tranquility como despertador. Junto com ela ouvi a melodia da decepção da segunda-feira. O gosto amargo que senti na boca profetizava como seria meu dia. Levantei como se tivesse acabado de acordar de um coma. Tomei um banho, escovei os dentes e fui para a padaria fazer o desjejum.

A forte luz do sol fez meus olhos doerem. Pedi um café com leite e uns pequenos pães que, mesmo não tendo nada de especial, me faziam bem ao paladar. A padaria estava lotada e a minha mesa era a única que ainda tinha lugar para mais uma pessoa.
Olhei para o caixa e vi três pessoas um homem, uma senhora gorda e uma moça bastante bonita. Um deles iria sentar-se junto comigo e como meu azar matinal por nada era superado certamente a velha gorda tomaria o café da manhã comigo. Se eu tivesse ao menos um fio tênue de sorte que fosse o homem é quem se sentaria, mas mesmo esta esperança já fora por mim descartada.