oblítus

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Existem coisas que a gente quer esquecer, mas se fixam em nossa memória como tinta indelével, uma farpa na mente que nos condena a conviver com essa angústia até o fim de nossas vidas. E espero que não haja vida após essa, pois o tormento seria ainda maior.
Hoje eu tenho vinte e cinco anos, mas foi quando eu tinha nove que as coisas mudaram bruscamente dentro de mim e só a lembrança disso me causa um tremor no corpo. Voltar no tempo e passear por aqueles momentos me enche de agonia, como se olhos invisíveis me observassem em cada passo, a cada corredor cinza por onde eu passe. Na época eu não era a mulher bem sucedida, casada e com dois filhos que sou hoje. E pensar naquele dia me faz olhar para meus filhos e temer. Eles tem quase a idade que eu tinha naquela época, me causando um nó na garganta. Quando olho para Emily, eu, que dou medo em meus funcionários, fico com os olhos cheios de lágrimas só em pensar que…
Bem, deixe-me contar.

Eu sou filha única, nascida sob um lar sofrido, pois meu pai trabalhava duro para sustentar a mim e minha mãe, que não conseguia emprego por ser paraplégica. Eu cresci vendo o esforço dos dois em me educar e termos uma vida razoável e hoje agradeço a Deus por poder devolver todo o carinho e empenho que tiveram comigo. E o amor de meu pai por minha mãe sempre me inspirou. Nos fins de semana nós íamos visitar meus avós maternos. Eu adorava, pois os dois eram muito carinhosos comigo e a companhia deles me era bastante agradável. Naquele dia chegamos quase na hora do almoço e já dava para sentir o cheiro de galinha cozida, a especialidade da minha avó, e logo me vieram à mente aquelas batatas macias, me causando água na boca só de lembrar.

a casa de bonecas

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Era outono e as folhas se arrastavam pelo asfalto. Tarde da noite, mas tudo ainda estava com uma cor acinzentada. O casal e suas duas filhas saíram do carro parado no meio da estrada e começaram a conversar.
- O que vamos fazer William? O carro morreu mesmo?
- É o que parece. Precisamos de um telefone. O celular não tem sinal – ele falou olhando em volta.
- Ali pai. – a filha mais velha, Kamila, apontou para uma tênue luz vinda de uma casa a alguns metros dali.
- Vamos lá. – disse o pai abrindo o porta-malas e retirando algumas coisas.
Eles se aproximaram da casa que não tinha muros. A única casa naquele deserto. Uma casa antiga, mas que se erguia imponente. A luz que provinha dos cômodos da casa parecia dançar.
- Parece que não tem luz, querido. – disse Alicia, a mulher. – E não está muito tarde para incomodarmos?
- Deve ter algum telefone pelo menos. E você não quer ficar dentro do carro a noite toda né?
Elisa, a filha mais nova coçava os olhos com sono.
Eles se aproximaram da porta e William bateu três vezes. Passos foram ouvidos se aproximando até que a porta abriu com um rangido. Uma senhora pequena e de cabelos bastante brancos apareceu e ajeitou seus óculos para ver melhor os visitantes.