a fome

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Eu a amei com algo muito maior que o próprio amor. Não havia definição. Eu necessitava dela mais que qualquer coisa no mundo. Era maior que paixão, maior que possessão, maior que obsessão. Era, e assim eu passei a chamar, fome.
A conheci numa palestra sobre mídias sociais. Eu, engenheiro em aplicativos de computação. Ela, web designer. Aqueles cabelos vermelhos e aquela tatuagem nas costas logo me chamaram a atenção. Era amiga de uma amiga minha, então a apresentação foi fácil e a atração foi rápida. No dia seguinte eu e ela estávamos tomando café depois de uma sessão de cinema. Tínhamos muito em comum e a conversa fluía naturalmente, com interesses que ambos compartilhavam. Passamos a nos encontrar com mais frequência. Nos sentíamos adolescentes apaixonados. Ríamos muito juntos e a cada vez que ela parecia se irritar com algo que eu fazia, prontamente eu tentava consertar a situação. A enchi de presentes, de mimos e também inflei seu ego. Então eu vi uma fome dentro de mim crescer e se tornar insaciável.
Logo dei um jeito de morarmos juntos. Ela deixou a casa da mãe e passamos a desfrutar de um apartamento só nosso, com vista para a praia. Eu a convenci a deixar o emprego, já que meu salário sustentava tranquilamente os dois e, como eu trabalhava em casa, teríamos mais tempo juntos. Claro que ela adorou a ideia. Eu, mais ainda. Nossos dias passaram a ser a realização de um sonho para mim. Deitava e acordava com ela do meu lado. Seu cheiro, seu gosto, sua presença. Tudo nela me encantava. Mas eu comecei a ver que isso não era suficiente. Transávamos todos os dias, quase todo o tempo. Ela era fogosa e eu, um tarado. Precisava sentir sua pele, seu gosto, seu interior úmido e macio. Batizamos praticamente todos os cômodos e móveis do apartamento. Ela era incansável, mas eu era mais ainda. Por vezes ela dormiu em cima de mim de exaustão, no meio da transa, mas eu não me importava. A tinha ali em meus braços. Pra sempre.

vis-à-vis

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- Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher.

Eu disse a frase em tom médio, mas, em meio ao burburinho do bar, os quatro colegas de trabalho que bebiam comigo, ouviram claramente. Os rostos se voltaram para mim, enquanto eu bebericava a cerveja. Primeiro foram as bocas entreabertas. Depois os sorrisos tortos, os olhares indagadores e o entreolhar-se confuso.

- Como é? – perguntou o cara à minha esquerda, olhando para mim como se visse um fantasma.

Era engraçado ver em seus rostos uma expressão de falsidade. Eu sabia o que eles pensavam da minha esposa. Via a forma como a olhavam quando ela ia até o escritório me entregar algum documento. Como lobos famintos por carne fresca. Eu até ouvia algumas vezes os comentários baixos que faziam sobre a bunda dela, sobre a boca.

Não posso negar a beleza da minha mulher. Morena, alta, seios médios, mas firmes. Bunda arrebitada e pernas bem torneadas. Eu me sentia privilegiado. E sabia que muitos dos que trabalhavam comigo me invejavam. Mas eu nunca comentara nada semelhante com eles. Nos conhecíamos há muito tempo, mas mesmo assim, ao menos na minha frente, eles me respeitavam. Sempre fui calado e reflexivo. Foi uma surpresa para eles.

- Foi o que eu disse. Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher e queria convidar vocês para fazer o mesmo.

O cara à minha frente se engasgou. Os outros três, com sorrisos tortos e a mente confusa, olhavam pra mim perplexos. Eu podia ver, em suas mentes pequenas, os neurônios em euforia, escolhendo as palavras, analisando parcamente os detalhes a fim de não estragar nada. Eu ria por dentro. O que coloquei diante deles era muito para seus minúsculos cérebros.

- Deixa eu ver se entendi. – começou o cara à minha esquerda. – Você está nos convidando para comer a sua mulher?

Olhei para ele com uma frase na cabeça. “Parabéns. Você teve capacidade sozinho de entender isso?” Mas eu abstive disso. Confirmei com a cabeça e ele olhou para os outros. Percebi que ele se comunicava com o olhar, pedindo aos outros pra que deixassem apenas ele falar. Qualquer deslize, pensavam eles, e perderiam essa chance única. Sequer passou pela cabeça deles que eu estivesse blefando, tamanha era a vontade que lhes assomou.