anime mea

in_the_mirror_by_aliceindeadland-djs90g
Marília sentiu a lâmina fria encostar no seu pescoço e um arrepio subiu-lhe pelo corpo desde o dedão do pé até a ponta mais dupla do seu cabelo. Uma respiração forte e adocicada batia na sua orelha, vinda de quem pertencia a mão que segurava a faca contra sua pele. Estavam diante de um espelho e ela pôde ver aqueles olhos grandes, insanos, lhe encarando por trás, com um sorriso macabro. Os olhos amendoados percorriam seu corpo enquanto ofegava. Marília engoliu em seco e encarou-a com os lábios trêmulos.
- Por que razão você tá fazendo isso?
A mulher nas suas costas criou rugas na testa. Abriu um sorriso maior e ficou em silêncio.
- Que mal eu fiz pra você? – questionou Marília.
- Que mal você me fez? Que mal você me fez? Você é o mal na minha vida.
- Mas o que eu fiz?
- Tecnicamente, você nasceu.
- Isso é algum tipo de brincadeira?
- Parece brincadeira pra você?

requiescat in pace

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Eu, Samuel Albuquerque, 30 anos, em pleno gozo de minhas faculdades mentais, venho, por meio deste, confessar por escrito que hoje, às 15:45, matei a pessoa mais importante da minha vida.
Nosso relacionamento durou muito tempo. Tanto que poderia ser considerado uma vida, se pode se chamar de vida o que tivemos juntos. Mas foi a impaciência que permeou nossos dias. Foram as bruscas mudanças de humor que fizeram as coisas saturarem. Não nego que tive bons momentos, mas todos os dias de profunda mágoa e angústia suprimiam as risadas e os fugazes sentimentos de felicidade. Agora só havia silêncio. O corpo, a alguns metros de mim, permanecia com os olhos abertos, sem vida. Os lábios roxos, a pele pálida.Foi meu limite. E não foi apenas um motivo. Foi a soma de todos eles. Eu sentia minha individualidade ser invadida. Sentia que minha liberdade estava ameaçada. Sua companhia já não me dava a mesma alegria que em tempos áureos. E o ciúme parecia enlouquecedor. Não suportava me ver com outra pessoa. Não importava o sexo. Preferia me ver solitário a acompanhado de quem quer que seja, mesmo que eu estivesse me sentindo bem. Foi então que sua presença começou a me incomodar. Não sentia mais vontade de conversar. Não sentia mais vontade de sair, comer, beber. Os dias se arrastavam, gris e enfadonhos. E se eu pedia um tempo para pensar, eu ouvia uma enxurrada de reclamações, lamentos, críticas e desistia.