segue as vias difusas de teu sangue,
os ciclos viciosos e obscuros de teu ar,
limpa a poeira milenar de tuas memórias.

vê, na prescrutadora fundura de meus olhos,
o silêncio antagônico de meu corpo durante o cio.

de perder o que não se tem – parte 2

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No seu segundo contato comigo, você vai me odiar.

Mas pelas mesmas razões do primeiro. Pela forma como demonstro o quanto eu já lhe conheço. Por causa do meu olhar que já desnuda tua alma. Mas não estou aqui dessa vez para falar de um encontro contigo. Estou aqui para falar de meu primeiro encontro comigo mesmo. E de toda a desgraça resultante disso.

Naquele dia cinza, naquela praça barulhenta, eu a vi. Não, não aconteceu nada do que os românticos possam imaginar. As cenas não ficaram em câmera lenta, nem senti o perfume suave de rosas, ou fogos de artifício. Muito menos um novo brilho nas cores. A vida seguiu seu curso enfadonho e lastimante. Mas claro que uma coisa me marcou. E eu não consigo esquecer essa imagem, mesmo tendo passado já tanto tempo.

Ela passou pela minha frente e seus olhos, lindos e verdes olhos, me ignoraram. Pousaram sobre mim por alguns milésimos de segundo. Mas foi o suficiente para eu sentir o desdém. Como se tivesse visto o nada e nada tivesse acontecido. Como as fezes que o gato olha e enterra, indiferente. Apenas uma piscadela. E esse piscar me fez sentir o mais miserável de todos os seres. Nunca antes eu tinha sentido aquele furacão de desprezo contido em um pestanejar. E ela se foi. Mas dentro de mim o desejo, que já fora de imediato despertado, começou a trabalhar na minha mente e corpo para conseguir o que queria. Olhei para seu corpo que se afastava e vi, na sua mão direita uma aliança. Esse detalhe me despertou mais ainda o desejo.

de perder o que não se tem – parte 1

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No seu primeiro contato comigo, você vai me amar.
Digo isso, pois já tenho prática. Minhas primeiras palavras com você estarão envoltas em um sorriso sincero, o que já vai te desarmar, provocando uma pequena fissura nos muros que você ergueu ao seu redor para impedir que qualquer um ultrapasse seu espaço. E eu verei esses muros caírem, pedra sobre pedra, diante de meus atos e palavras, pois vou olhar fixamente nos seus olhos, mesmo que você os desvie de mim. Inclinarei um pouco a cabeça para o seu lado, demonstrando que realmente estou querendo te ouvir. Farei perguntas para saber seus gostos e interesses e gravarei tudo na memória para consultas e conversas posteriores. E quando eu vir o brilho nos seus olhos, quando eu vir o seu primeiro sorriso ante algo que eu tenha dito e fez seu coração acelerar e sua pele se arrepiar, demonstração de que encontrou alguém que se interessa por suas conversas e se sente bem com sua companhia, nesse exato momento, eu abrirei um sorriso irônico dentro de mim e saberei que eu já te tenho em minhas mãos. E vou tirar de você tudo o que eu necessitar, como um câncer.
Eu sou carismático. Sempre fui. Me tornei assim para conseguir o que queria, com paciência, com habilidade e isso nunca me falhou. Minhas primeiras cobaias foram meus pais. Nunca fui uma criança birrenta, malcriada ou mimada. Eu era sereno e educado. Não precisava de lágrimas para ter o que eu queria. Calculava as possibilidades, já em idade tenra, e desenvolvia meios pelos quais, direta ou indiretamente, meus pais fizessem exatamente o que eu queria. Eu me divertia muito com isso. A arte da manipulação, essa sutil arte que não pode ser vista pelos idiotas, foi meu brinquedo desde a infância. Com o passar do tempo isso foi se aperfeiçoando a ponto de eu chegar hoje e me orgulhar de tudo o que eu fiz, apesar de, aos olhos de outros, ser tudo isso uma falta de caráter.

oblítus

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Existem coisas que a gente quer esquecer, mas se fixam em nossa memória como tinta indelével, uma farpa na mente que nos condena a conviver com essa angústia até o fim de nossas vidas. E espero que não haja vida após essa, pois o tormento seria ainda maior.
Hoje eu tenho vinte e cinco anos, mas foi quando eu tinha nove que as coisas mudaram bruscamente dentro de mim e só a lembrança disso me causa um tremor no corpo. Voltar no tempo e passear por aqueles momentos me enche de agonia, como se olhos invisíveis me observassem em cada passo, a cada corredor cinza por onde eu passe. Na época eu não era a mulher bem sucedida, casada e com dois filhos que sou hoje. E pensar naquele dia me faz olhar para meus filhos e temer. Eles tem quase a idade que eu tinha naquela época, me causando um nó na garganta. Quando olho para Emily, eu, que dou medo em meus funcionários, fico com os olhos cheios de lágrimas só em pensar que…
Bem, deixe-me contar.

Eu sou filha única, nascida sob um lar sofrido, pois meu pai trabalhava duro para sustentar a mim e minha mãe, que não conseguia emprego por ser paraplégica. Eu cresci vendo o esforço dos dois em me educar e termos uma vida razoável e hoje agradeço a Deus por poder devolver todo o carinho e empenho que tiveram comigo. E o amor de meu pai por minha mãe sempre me inspirou. Nos fins de semana nós íamos visitar meus avós maternos. Eu adorava, pois os dois eram muito carinhosos comigo e a companhia deles me era bastante agradável. Naquele dia chegamos quase na hora do almoço e já dava para sentir o cheiro de galinha cozida, a especialidade da minha avó, e logo me vieram à mente aquelas batatas macias, me causando água na boca só de lembrar.

olhar perdido

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O relato a seguir foi contado a mim por um homem que conheci há um ano. Na época eu estava cuidando de um familiar que ficou hospitalizado e o encontrei no mesmo quarto com meu parente e mais duas pessoas. O leito dele ficava perto da janela. Estava com os olhos enfaixados e nunca recebia visita. Comecei a ficar curioso com ele. Tinha uns 35 anos, cabelos grisalhos, corpo fino e nariz adunco. Para uma pessoa que não estava conseguindo ver, ele demonstrava muita naturalidade em se adaptar à sua atual situação e muita destreza, principalmente na hora das refeições, quando sequer precisava de ajuda. Aproximei-me dele certo dia, quando meu familiar estava dormindo, e aproveitei pra puxar conversa. O que ele me contou nunca mais saiu da minha cabeça. Disse-lhe que eu costumava escrever alguns contos na internet e perguntei se poderia contar a sua história pro mundo. Ele consentiu e eu decidi, lembrando com detalhes de tudo o que ele havia dito, escrever em primeira pessoa. A partir daqui vou lhe contar como esse homem foi parar no hospital. A partir daqui você saberá a história desse homem que, ao falar de sua experiência, virou o rosto na direção da janela como se olhasse para o horizonte, numa mirada perdida.

“Nunca fui uma pessoa tímida. Na verdade sempre fui muito calado, na minha, mas não tinha timidez. Só não gostava muito de me relacionar com as pessoas, mas quando era preciso, eu o fazia naturalmente. A não ser por um ponto. Ponto esse que sempre foi motivo de reclamações por toda a minha vida. Meus pais sempre me alertavam para isso. Minha mãe certa vez chegou a me bater por causa disso. Eu não conseguia olhar para os olhos das pessoas.
Não é vergonha, não é timidez. Eu só acho desnecessário. Dizem que isso diz muito sobre você, que uma pessoa honesta sempre te olha nos olhos, etc… Besteira. Sou um homem honesto sem ter precisado encarar ninguém na vida. Acho até que esse encarar gera muitos problemas. Na escola, se alguém encarasse o outro já era motivo pra sair na porrada. E eu sempre achei ridículo isso. Mas não era isso que as pessoas pensavam.
“Olhe pra mim!”, gritava minha mãe. “Quando eu falar com você, olhe nos meus olhos.”, advertia-me a professora. “Olhe nos meus olhos”, disse minha primeira namorada. Mas eu não conseguia. Simplesmente não dava. Eu sempre desviava os olhos. Sempre atentava para outra coisa. Não que eu não prestasse atenção. Sempre fui atencioso. Não precisava olhar nos olhos das pessoas para entender o que elas estavam falando. Tanto que fui um bom aluno na escola, fui um ótimo orador na universidade e sou um exemplar funcionário na empresa em que trabalho. Mas as pessoas não são satisfeitas como eu. A questão de não olhar nos olhos continuava sendo um problema, não importava o quanto eu me saísse bem em algo.

a fome

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Eu a amei com algo muito maior que o próprio amor. Não havia definição. Eu necessitava dela mais que qualquer coisa no mundo. Era maior que paixão, maior que possessão, maior que obsessão. Era, e assim eu passei a chamar, fome.
A conheci numa palestra sobre mídias sociais. Eu, engenheiro em aplicativos de computação. Ela, web designer. Aqueles cabelos vermelhos e aquela tatuagem nas costas logo me chamaram a atenção. Era amiga de uma amiga minha, então a apresentação foi fácil e a atração foi rápida. No dia seguinte eu e ela estávamos tomando café depois de uma sessão de cinema. Tínhamos muito em comum e a conversa fluía naturalmente, com interesses que ambos compartilhavam. Passamos a nos encontrar com mais frequência. Nos sentíamos adolescentes apaixonados. Ríamos muito juntos e a cada vez que ela parecia se irritar com algo que eu fazia, prontamente eu tentava consertar a situação. A enchi de presentes, de mimos e também inflei seu ego. Então eu vi uma fome dentro de mim crescer e se tornar insaciável.
Logo dei um jeito de morarmos juntos. Ela deixou a casa da mãe e passamos a desfrutar de um apartamento só nosso, com vista para a praia. Eu a convenci a deixar o emprego, já que meu salário sustentava tranquilamente os dois e, como eu trabalhava em casa, teríamos mais tempo juntos. Claro que ela adorou a ideia. Eu, mais ainda. Nossos dias passaram a ser a realização de um sonho para mim. Deitava e acordava com ela do meu lado. Seu cheiro, seu gosto, sua presença. Tudo nela me encantava. Mas eu comecei a ver que isso não era suficiente. Transávamos todos os dias, quase todo o tempo. Ela era fogosa e eu, um tarado. Precisava sentir sua pele, seu gosto, seu interior úmido e macio. Batizamos praticamente todos os cômodos e móveis do apartamento. Ela era incansável, mas eu era mais ainda. Por vezes ela dormiu em cima de mim de exaustão, no meio da transa, mas eu não me importava. A tinha ali em meus braços. Pra sempre.