requiescat in pace

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Eu, Samuel Albuquerque, 30 anos, em pleno gozo de minhas faculdades mentais, venho, por meio deste, confessar por escrito que hoje, às 15:45, matei a pessoa mais importante da minha vida.
Nosso relacionamento durou muito tempo. Tanto que poderia ser considerado uma vida, se pode se chamar de vida o que tivemos juntos. Mas foi a impaciência que permeou nossos dias. Foram as bruscas mudanças de humor que fizeram as coisas saturarem. Não nego que tive bons momentos, mas todos os dias de profunda mágoa e angústia suprimiam as risadas e os fugazes sentimentos de felicidade. Agora só havia silêncio. O corpo, a alguns metros de mim, permanecia com os olhos abertos, sem vida. Os lábios roxos, a pele pálida.Foi meu limite. E não foi apenas um motivo. Foi a soma de todos eles. Eu sentia minha individualidade ser invadida. Sentia que minha liberdade estava ameaçada. Sua companhia já não me dava a mesma alegria que em tempos áureos. E o ciúme parecia enlouquecedor. Não suportava me ver com outra pessoa. Não importava o sexo. Preferia me ver solitário a acompanhado de quem quer que seja, mesmo que eu estivesse me sentindo bem. Foi então que sua presença começou a me incomodar. Não sentia mais vontade de conversar. Não sentia mais vontade de sair, comer, beber. Os dias se arrastavam, gris e enfadonhos. E se eu pedia um tempo para pensar, eu ouvia uma enxurrada de reclamações, lamentos, críticas e desistia.

Desejei me esconder, mas era impossível. Me sufocava de tal maneira que eu não sabia onde eu terminava e onde ela começava. Era algo doentio, mas vejam, eu, por vezes, até me sentia bem assim. Em dados momentos me aquietava. Meus pensamentos descansavam e eu desfrutava de sua presença. Não posso negar que era a única pessoa que me entendia. Não posso negar que era a única pessoa que me consolava. E por mais que alguns dias fossem insuportáveis, fazia falta ouvir as reclamações, críticas, mágoas.Eu sei, é absurdo. Talvez eu tenha me acostumado. O costume é um grande inimigo.  Durou um tempo. Mas pareceu que a cada vez que eu mantinha a paciência, ela usava uma nova estratégia para me testar. Eu ganhava, eu cedia, eu passava pela situação como um verdadeiro herói. Então chegava outro momento, mais quente, mais insuportável e novamente minha paciência era testada. E a cada vez que eu ultrapassava a ponte que ela construía de vilipendias constantes, ela atualizava sua maneira de me deixar mais chateado, mais irritado, mais magoado. E eu não aguentei mais.

Eu comecei a odiar profundamente seus atos e hábitos. Eu queria evitar uma coisa, mas ela insistia. Insistia tanto que eu cedia. E depois me sentia mal, enquanto ela se deleitava no gozo causado pela minha queda. Sua vitória. Não conseguia olhar mais em seus olhos. Não podia suportar sequer o seu reflexo em minha retina. Então, hoje, acordei decidido a dar fim a tudo. E dei.

Agora estou aqui, contando este relato. Não sei como, porque ou por quem me foi dada essa oportunidade de descrever como as coisas aconteceram. Mas eu agradeço. E agora olho para o lado e vejo, o corpo da pessoa mais importante da minha vida. Meu corpo. Meu cadáver. Suspenso entre o chão e o teto. Pendurado por uma corda encardida. A boca sem sua cor natural. Os olhos, sem vida, ainda olhavam para mim. Meus olhos. A expressão plácida ainda repousava no rosto, calma e serena. Era estranho, mas senti certo alívio ao me ver livre de mim mesmo.

Não sei o que será de mim agora. Não sei sequer o que sou agora. Este “corpo” etéreo que parece ser mais a minha alma. Não sei porque ainda estou aqui. Sei apenas de uma coisa: Agora fico aqui, olhando para meu próprio corpo sem vida, e, por mais que eu saiba que todas as dores físicas não mais me acompanharão, eu sinto aqui, seja lá no que eu me tornei agora, essa dor, rainha de todas as dores, desesperadora, invadindo e tomando conta de meu ser. A dor que não toca a carne.

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