lacrimosa

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“Ser ou não ser… Eis a questão. 
Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. 
Morrer… dormir… dormir… Talvez sonhar…”  Hamlet, Ato III, cena I

***
Você está acordado?
Para você essa pode parecer uma pergunta idiota, já que está lendo isso. Para mim não. Desde criança eu tenho certa dificuldade em discernir quando estou acordado ou dormindo. Minha mãe, em sonho, me pedia para fazer algo e no dia seguinte, tendo executado sua ordem onírica, ela reclamava, pois não tinha pedido tal coisa de verdade e até tinha atrapalhado-a. Na escola, quando meus professores passavam lição de casa, eu sonhava que fazia e acreditava tão piamente nisso que no dia seguinte ia para a escola com a lição por fazer, pois nem abria o caderno de tão convencido que estava de que ela estava pronta. Para mim, tudo nos sonhos era tão real quanto fora deles.
Faltei a vários compromissos na minha fase adulta e ainda falto, por pensar ter ido quando na verdade foi apenas um sonho. As pessoas passaram a não confiar em mim, pois se me diziam algo, nunca sabiam se eu faria na vida real ou num sonho. Eu procurei ajuda, fiz tratamento, mas nada deu resultado. Tive de me acostumar a essa vida espalhando pela casa bilhetes, despertadores, agendas eletrônicas, tudo o que pudesse me orientar para saber se estava acordado ou não e quais deveres eu estava ainda por concluir. Ainda hoje, eu vivo uma vida difícil.
Consegui me aposentar devido a essa minha dificuldade bem cedo. Atualmente eu trabalho na livraria de um velho amigo que, compreendendo minha situação e não querendo que eu vivesse solitário em casa, me deixou ajudá-lo, o que me fez muito bem. Aparentemente a rotina deu uma aliviada no meu problema e poucas vezes tive dificuldade com essa questão de não saber se estou dormindo ou acordado na livraria. Nem os livros sobre sonhos na sessão exotérica me ajudavam. para mim eles eram rasos demais para alguém com tanta intimidade com os sonhos. Mas claro que isso não durou muito tempo. Pois foi nesse lugar que eu a conheci.
Priscila. Seus cabelos são como uma noite negra sem estrelas cortada por um cometa vermelho. A mecha escarlate, única, sobressaindo dentre seus fios negros como o breu, repousava sobre o par de óculos. Quando ela soprava para afastá-la da frente do rosto, meu corpo tremia. Mas o que realmente me fazia sorrir eram seus olhos. Uma floresta verde, um lago cristalino. Em seus verdes olhos a poesia estava grávida.  Ela é a obra prima que eu contemplo de longe. Só trocamos palavras algumas vezes. Um bom dia, uma boa noite. Nada muito além disso. Mas apenas nesse lugar que chamamos de realidade.
À noite, quando deitava e adentrava no mundo de Morpheus, ela era outra no meu mundo. Ela era o meu mundo. Conversávamos por horas na livraria, na minha casa, na casa dela, que eu não conhecia. Em passeios no parque e em refeições regadas a vinho. Seu sorriso ficava marcado na minha mente e nas linhas de meu rosto. Falávamos sobre tudo. Sobre a infância, sobre os amigos que tivemos e tínhamos. Dos namorados dela, pois as minhas foram poucas e nunca constantes. Do futuro. Ela dizia sonhar em ser atriz. Estava tentando um papel numa peça não muito conhecida. E eu gravava tudo. Nomes, endereços, seus sonhos.
No dia seguinte, ao acordar, eu era um turbilhão de sentimentos. Raiva por ter saído do nosso mundo. Esse mundo que é a personificação de meus desejos, com seu frágil tecido que se desintegra sob a luz solar. E alegria, por poder ver mais uma vez Priscila, em carne e osso, mesmo agindo como se não nos conhecêssemos e fossemos íntimos  Claro que dessa intimidade ela não tinha conhecimento. De tanta confusão em minha mente, por vezes, eu a tratava como se fosse no sonho, o que a deixava desconcertada. Certa feita, por exemplo, após ter tido o sonho mais vívido da minha vida, onde trepamos gostoso, essa sinfonia de corpos horizontais, olhos fechados e gemidos dissonantes, eu cheguei na livraria, enevoado pela realidade em que eu acreditava estar acordado, e lancei-lhe um olhar e um sorriso maliciosos, provocando em sua testa rugas de dúvida, provavelmente de minha sanidade mental. Só aí percebi que estava acordado. Sim, eu passei vários momentos vergonhosos. Cheguei a tocar nela, imaginando estar no mundo de lógica gasosa dos sonhos. Ela não se afastou, o que me fez oscilar sobre onde na verdade eu estava. Não poderia imaginar que meus sonhos se tornariam realidade. Pelo menos não fora da minha cabeça. Então, como que por ironia sádica do destino, ela começou a se interessar por mim. Sim, não no sonho. No mundo real. Pelo menos é o que eu podia notar, mas sei que é complicado acreditar em mim. O mundo real. Esse em que as esperanças são tão frágeis quanto a própria pele e a camada da própria realidade em si. E eu pensei estar sonhando. Talvez fosse um sonho dentro de outro? Pedi para ela me beliscar e lembro da dor. Então comprovei que meu sonho tinha se tornado realidade. Não sou um homem bonito, mas ela disse ter visto um charme em mim. Foi aí que minha mente voltou às confusões de sempre. Agora eu não sabia muito bem quando estava acordado e quando dormia, pois em ambos os mundos eu estava com Priscila. Se despertava ou se adormecia, a musa dos meus poemas oníricos se materializava. Me senti vítima de minha loucura sequaz mais do que nunca em toda a minha existência. Decidimos morar juntos, na casa dela. E vivemos dias inesquecíveis. Conversávamos sobre meu problema sempre que podíamos. Ela parecia sentir certa fascinação, quase beirando ao orgulho. Eu contava que nos sonhos eu tinha desejos que ela me despertava, mas não tinha coragem de lhe dizer frente a frente. Criei essa coragem no mundo dos sonhos que era um total antagonismo à minha covardia exacerbada na vida real. E ela, ternamente, me ajudava nesse sentido. Ela me compreendia. Ela colocava minha alma em seu corpo, minha rede, e me balançava até a dor adormecer. A dor mecer. Me ajudou muito a me situar na vida real. Foi minha guia por um ano. Minha melhor amiga e mãe. Melhorei, mas não tanto. Ainda me confundia com os mundos, mas estava mais que feliz pois agora, em ambos, ela era minha. Então, num dia frio de Dezembro, quando o sol, tímido, se esconde sob as nuvens espessas e tudo parece ser uma longa melodia melancólica, essa música que fotografa tudo em nossa mente, eu voltava para casa e, como ela não fora trabalhar por se sentir indisposta, tendo ficado em casa deitada e descansando eu fui direto para nosso quarto. Antes da porta eu senti seu perfume. E ela estava lá, na cama, a visão mais bela e perfeita que um homem poderia ter. Que outra arte se compara à uma bela mulher deitada, dormindo o sono de inocência, entregue ao seu mundo particular e todas as volúpias que contradizem a castidade de suas feições em estado dormente? A pele alva contrastava com seus escuros cabelos e a mecha vermelha lhe caia sobre o seio. A boca entreaberta, parecendo uma sereia cantando e me atraindo para o veneno que esconde em seus lábios. Sentei-me do seu lado e fiquei contemplando-a por uns instantes. Passei a mão no seu rosto macio. Não me importei se era sonho ou real. Eu queria aproveitar ao máximo aquele momento único em que via minha mulher entregue ao mundo dos sonhos. Esse mundo que eu conheço tão bem. Afaguei seus cabelos e senti seu aroma subir até minhas narinas. Deslizei os olhos sobre seu corpo. Meu coração acelerou. Fixei seu busto e algo estava errado. Não arfava sob a camisola. Coloquei uma mecha de seu cabelo por trás da orelha e chamei-a. – Amor. Não obtive resposta. Carinhosamente lhe dei um beijo na bochecha, como já fizera tantas vezes, e a chamei de novo. Silencio. A sacudi pelo ombro devagar e nenhuma reação. Entrei em desespero e a sacudi mais forte. Ela nunca teve sono pesado. Inerte, seu corpo clamava um silencio que eu não podia suportar. – Priscila! – eu gritei atormentado. Verifiquei seu pulso e mais silencio. Afundei a orelha entre seus seios a fim de escutar sua batida e nada. Olhei ao redor e só vi escuridão. Não saia ar de seu nariz e boca. Seu corpo, mole e sem vida, jazia no lugar em que nós demonstrávamos mais vida que em qualquer outro. Corri para o banheiro e joguei água no rosto. Bati várias vezes as mãos nas minhas bochechas na tentativa de acordar e nada. Bati forte a ponto de arderem minhas mãos e rosto. Num último esforço, dei um soco no queixo que me deixou um pouco tonto. Eu tentava de todas as formas acordar. Num súbito desespero eu joguei a testa no espelho à minha frente. Ele quebrou, minha fronte sangrou e eu continuava ali, olhando para a minha face desfigurada num espelho quebrado e banhado de sangue. Virei-me e olhei para a cama. O corpo de minha amada jazia no mesmo lugar. Eu gritei, me joguei no chão em mais uma frustrante tentativa de acordar e nada. O sangue tingiu minha visão de vermelho. Uma língua do líquido viscoso lambeu meu lábio superior e eu senti o gosto amargo da realidade. Nada me fazia acordar. Nada. Pois eu não estava dormindo.
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