de perder o que não se tem – parte 1

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No seu primeiro contato comigo, você vai me amar.
Digo isso, pois já tenho prática. Minhas primeiras palavras com você estarão envoltas em um sorriso sincero, o que já vai te desarmar, provocando uma pequena fissura nos muros que você ergueu ao seu redor para impedir que qualquer um ultrapasse seu espaço. E eu verei esses muros caírem, pedra sobre pedra, diante de meus atos e palavras, pois vou olhar fixamente nos seus olhos, mesmo que você os desvie de mim. Inclinarei um pouco a cabeça para o seu lado, demonstrando que realmente estou querendo te ouvir. Farei perguntas para saber seus gostos e interesses e gravarei tudo na memória para consultas e conversas posteriores. E quando eu vir o brilho nos seus olhos, quando eu vir o seu primeiro sorriso ante algo que eu tenha dito e fez seu coração acelerar e sua pele se arrepiar, demonstração de que encontrou alguém que se interessa por suas conversas e se sente bem com sua companhia, nesse exato momento, eu abrirei um sorriso irônico dentro de mim e saberei que eu já te tenho em minhas mãos. E vou tirar de você tudo o que eu necessitar, como um câncer.
Eu sou carismático. Sempre fui. Me tornei assim para conseguir o que queria, com paciência, com habilidade e isso nunca me falhou. Minhas primeiras cobaias foram meus pais. Nunca fui uma criança birrenta, malcriada ou mimada. Eu era sereno e educado. Não precisava de lágrimas para ter o que eu queria. Calculava as possibilidades, já em idade tenra, e desenvolvia meios pelos quais, direta ou indiretamente, meus pais fizessem exatamente o que eu queria. Eu me divertia muito com isso. A arte da manipulação, essa sutil arte que não pode ser vista pelos idiotas, foi meu brinquedo desde a infância. Com o passar do tempo isso foi se aperfeiçoando a ponto de eu chegar hoje e me orgulhar de tudo o que eu fiz, apesar de, aos olhos de outros, ser tudo isso uma falta de caráter.
 

Minha lista é extensa. A primeira grande proeza foi quando eu tinha 10 anos. Tinha um amigo de escola que era, como a maioria das pessoas, muito susceptível à uma mente mais inteligente. Eu o fiz odiar seus pais. Plantei tantas informações na cabeça dele que ele começou a desobedecer, xingar os pais e me ter como seu único e intransferível conselheiro. Lembro que ele me contou de várias vezes que apanhara dos pais. Surras fortes que deixaram marcas em seu corpo. Mas ele se sentia um mártir. Via aquilo como um sacrifício recebido por estar certo, estar seguindo meus conselhos. E eu exultava em meu interior com aquilo. Lembro claramente do prazer que me enchia o corpo quando eu via a marca da fivela do cinto na sua coxa. E lembro como o idiota se alegrava pelo que estava passando.
Mas eu enjoo muito rápido das coisas. Isso é bom, pois não me entrego à rotina. e não gosto de receber nada fácil. Gosto de me esforçar para ter o que quero, seja qual for o meio necessário para obter. Dessa forma eu cansei desse meu amigo e comecei a ignorá-lo. Quando me procurava eu dizia que estava cansado ou precisava fazer algo, o que fez ele desconfiar que eu não queria mais a sua amizade. Ele agora vinha me mostrar as marcas de surra que levava como troféus, como oferendas à mim e eu desprezava cada uma delas com um olhar desdenhoso, quase de nojo, o que o fez tomar medidas drásticas. Para chamar a minha atenção ele cortou os pulsos uma vez. Você pode estar pensando: Uma criança de 10 anos? Gostaria de lhes lembrar que não há idade para a loucura. E, apesar de os cortes nos pulsos terem me divertido um pouco, eu estava saturado dele, então nem dei tanta atenção. Ele passou uma semana sem aparecer na escola. Soubemos então que ele havia pulado da janela de seu apartamento no décimo andar. Essa foi a primeira vez que eu senti uma satisfação completa.
Quando completei 15 anos me interessei por uma garota dois anos mais velha. Ela tinha um namorado, mas isso não me importava. Eu a queria e certamente a teria. Não tenho pressa para ter o que quero, então, pacientemente, planejei tudo para finalmente tê-la. Comecei ignorando-a e tornando-me amigo do namorado dela. Criei realmente amizade com ele. Mas toda vez que ela aparecia eu a ignorava. Cheguei a pensar que ela esqueceria da própria existência tal era a forma como eu a ignorava. Certa vez ela veio falar sozinha comigo perguntando se eu tinha raiva dela ou algo do tipo. Aquele era o momento exato. Eu sabia que meu ignorar a atrairia e a traria até mim. Então não deixei escapar.
Tenho um certo tom de voz que uso para momentos como esse. Falo com uma suavidade, mas convicção tal que pretendo colocar sua alma numa nuvem. Eu fixei meus olhos nos dela, grandes olhos amendoados, e falei segurando sua mão que estava apaixonado por ela, mas não queria estragar a relação que ela tinha com meu amigo. Falei que se não fosse por isso já teria me declarado há muito e que não estaria sentindo a angústia que me assolava o peito. Disse que seria incapaz de trair meu amigo dessa forma, por isso achava melhor me manter o mais longe possível dela, mesmo que isso fosse doloroso para mim.
Ela usava uma blusa de seda com um decote em V e eu pude ver seu busto arfar sob ela. Sua boca entreabriu a cada palavra minha. Seus olhos brilhavam encarando os meus. Vi seus ombros caírem um pouco no término de minha confissão. Naquele momento eu soube que ela faria o que eu quisesse. Palavras? Ela não encontrou nenhuma. Uma pequena poça de lágrima se formou nos seus olhos e, súbito, ela largou minha mão e saiu correndo.
Meu trabalho estava feito. Plantei a semente e agora era só esperar os frutos. Dois dias depois ela me ligou dizendo que tinha terminado o namoro e que não parava de pensar em mim. Eu não cedi tão facilmente. Falei de minha preocupação com meu amigo, dizendo que sentia que o estaria traindo se começasse uma relação com ela tão rapidamente. Claro que por dentro eu apenas cantava um hino de vitória, mas nem isso  poderia ela sentir no som de minha voz. Ela pediu para nos encontrarmos, mas eu pedi um pouco de tempo. Ela hesitou, mas a convenci. Eu sabia que ainda havia algo a ser resolvido, pois precisava ver a cara do meu “amigo”.
Havia uma casa de palha num terreno baldio onde eu e ele nos encontrávamos para conversar, falar de mulheres e compartilhar revistas pornográficas, vídeos e cigarro. Ele me mandou uma mensagem nesse mesmo dia para nos encontrarmos lá. E fui. Quando cheguei ele estava sentado no chão empoeirado chorando. Sim. Chorando. Achei aquilo patético, humilhante, mas me fez sentir bem. Muito bem. Um sadismo visceral tomou conta de mim. Eu já o vinha carregando comigo, mas ele cresceu ao ver essa cena. Deixei perto da porta um recipiente dentro de uma sacola cair e um líquido derramar, mas ele nem percebeu. Começo a falar, entre soluços, o que havia acontecido e eu, como sempre, demonstrando interesse. Depois de ouvir muito choro, muitos soluços e toda uma baboseira de que a amava, que fez tudo por ela e tal, eu sorri para ele e disse que ela estava apaixonada por mim. Seu rosto desfigurou imediatamente. Num movimento brusco e, confesso, inesperado, ele avançou para cima de mim e agarrou a gola de minha camisa com as duas mãos. Derramou sobre mim várias palavras de ofensa, reclamação e desprezo. Lembrou a mim que eu era seu melhor amigo e inutilmente me perguntou se ele significava algo para mim. Ante meu sorriso, que encobria várias palavras de ojeriza por ele, ele me deu um soco no nariz que me fez sangrar. Eu não reagia. Isso o enfureceu mais. Me socou o estômago e eu curvei o corpo no chão, quase vomitando. Deu um chute nas minhas costelas que me tirou o ar novamente. Deitei no chão e olhei para ele. “Já está se sentindo melhor?”, perguntei. Ele me ergueu com uma mão só e, quando estava prestes a me dar mais um golpe no rosto, eu bati minha cabeça na dele. Ele recuou com dor e depois deu um soco em seu rosto, de baixo para cima, o que o fez desmaiar.
Respirei fundo me arrumei. Lembrei-me da música tema de O Clube da Luta e comecei a assobiá-la enquanto tirava uma caixa de fósforo do bolso. Acendi um deles e joguei no líquido que havia derramado perto da porta quando cheguei. O líquido se inflamou rapidamente e começou a subir nas paredes de palha da casa. Sai e fiquei afastado, olhando para aquele escultura em chamas que surgia à minha frente. Vi as unhas de fogo arranharem cada local, incluindo o corpo daquele que fora meu amigo, ou pelo menos era o que ele achava.
Então fui para o encontro com meu prêmio. Quando ela soube que ele havia morrido, não se sabia por quem, ficou triste, mas óbvio que eu estava lá para consolá-la. Passou-se três meses. A rotina já começava a me incomodar. Eu tinha tirado dela tudo o que eu queria e agora estava na hora de partir para outra. Terminei o namoro, sob protestos, lágrimas e escândalos na tentativa de me fazer ficar. Mas eu, frio, não aquiesci aos seus apelos e a deixei. Entrou em depressão e até hoje não tenho notícia.
Quando completei 27 anos, após outras conquistas, pequenas e que não interessam nesse meu relato, conheci um homem. Bonito, inteligente, casado e pai de três filhos. Quando pousei meus olhos nele, percebi que não era uma pessoa feliz. Nos conhecemos em um teatro. Ele foi só e sentou do meu lado. Conversamos, assistimos e depois eu o convidei para beber algo. Rapidamente ele caiu na minha lábia e me confessou que não estava feliz no casamento. Deixei-o tão à vontade e demonstrei passar tanta confiança que ele confessou que tinha vontade de ter um relacionamento com outro homem. Foi aí que eu o desejei e com certeza o teria.
Passamos a nos encontrar várias vezes à noite. Me contava do amor que sentia pelos filhos, da boa esposa que tinha e do sentimento que lhe angustiava por achar que a estava enganando, pois já não sentia mais atração por ela. Ele começou a ter as nossas conversas como um divã. Quando vi que ele estava susceptível a qualquer intervenção minha, quando percebi que ele já estava na minha mão, disse que estava apaixonado por ele. O brilho nos seus olhos, a pupila delatora, me fez sorrir e visualizar mais uma vitória. Dei a ele uma noite inesquecível. Mostrei a ele que estava disposto a fazer o possível para ter ele comigo. E a cada despedida quando ele sorria na esperança de me ver no outro dia, eu sorria também, mas sarcasticamente. Eu quase via os fios de marionetes presos a seu corpo sob o controle de meus dedos.
O que se sucedeu depois foi a ruptura de seu casamento. O choro inconsolável de sua esposa, não acreditando que tinha sido trocada por um homem. O desespero das crianças ao saber que não teriam o pai em casa todos os dias como sempre fora. O desprezo contido no pestanejar daquela mulher quando me olhou pela primeira vez. As lágrimas nos rostos das crianças quando viram o pai se despedir de mãos dadas comigo dizendo que os veria no dia seguinte. Minha alegria por ter conseguido mais uma vez manipular uma pessoa tão facilmente. Todo o meu corpo fremia ao ver a desolação no rosto da mulher que acabara de perder seu marido com quem vivera por oito anos.
No começo eu tive que ouvir lamúrias dele sobre o que tinha feito. E em seu arrependimento, eu exultava. As crianças não queriam passar o dia na nossa casa por minha causa. Eu gostava muito disso, pois não suportaria aquelas crianças perto de mim, apesar de eu demonstrar, na frente dele, que as queria muito. Crianças sabem quando estamos mentindo e para elas eu era a pessoa mais desprezível desse mundo.
O vi definhar de angústia durante os dois meses que passamos junto. Me alimentava daquilo. Eu era carinhoso, atencioso, mas sabia que nada disso adiantaria, pois ele sabia que havia cometido um erro e estava com muito medo de admitir a si mesmo. Então um dia ele chegou para mim e disse que não estava aguentando mais. Qual não foi a sua surpresa quando eu disse apenas “Está bem”. Olhou-me incrédulo, pensando que eu iria chorar pedindo para que ele não fosse. Minha frieza causou uma decepção enorme nele. Nos separamos. Eu satisfeito com mais uma vitória, acompanhei ele de longe em sua tentativa frustrada de recomeçar a vida. Tentou voltar para a esposa, mas a mulher estava com o coração muito magoado para conseguir perdoar. Meu trabalho estava feito. Tudo aquilo me causava um prazer que eu não conseguiria descrever com simples palavras.
Não posso pedir que você, leitor, me entenda. Nem preciso da sua compreensão. Me julgue se quiser. Não vai fazer diferença alguma. Você pode até perguntar se eu me arrependo de tudo o que fiz. Eu, um destruidor de sonhos, de famílias, de paz. E eu responderia que não. Podem olhar-me como um câncer. Mas hoje, ao escrever isso, minha mente confunde-se comigo mesmo. Parece que no turbilhão de tantos sentimentos, o arrependimento começa a brotar. A razão? É simples. Todos temos nosso ponto fraco. Incluindo eu mesmo.
Foi quando eu tinha 30 anos. Cansado de mais uma exaustiva rotina, procurando, observando as pessoas numa praça, algo que me despertasse o interesse. Buscando algo belo, feliz, pacifico que eu pudesse destruir. Foi naquela tarde de outubro, quando as nuvens encobriam o sol e as folhas secas das árvores cobriam o chão com um manto de morte, que eu a vi.
Cabelos loiros, pele alva, olhos deliciosamente verdes. No primeiro olhar eu a desejei. E foi naquele instante que começaria o capítulo do livro da minha vida em que tudo mudaria drasticamente.
(continua na próxima terça.)

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