de perder o que não se tem – parte 2

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No seu segundo contato comigo, você vai me odiar.

Mas pelas mesmas razões do primeiro. Pela forma como demonstro o quanto eu já lhe conheço. Por causa do meu olhar que já desnuda tua alma. Mas não estou aqui dessa vez para falar de um encontro contigo. Estou aqui para falar de meu primeiro encontro comigo mesmo. E de toda a desgraça resultante disso.

Naquele dia cinza, naquela praça barulhenta, eu a vi. Não, não aconteceu nada do que os românticos possam imaginar. As cenas não ficaram em câmera lenta, nem senti o perfume suave de rosas, ou fogos de artifício. Muito menos um novo brilho nas cores. A vida seguiu seu curso enfadonho e lastimante. Mas claro que uma coisa me marcou. E eu não consigo esquecer essa imagem, mesmo tendo passado já tanto tempo.

Ela passou pela minha frente e seus olhos, lindos e verdes olhos, me ignoraram. Pousaram sobre mim por alguns milésimos de segundo. Mas foi o suficiente para eu sentir o desdém. Como se tivesse visto o nada e nada tivesse acontecido. Como as fezes que o gato olha e enterra, indiferente. Apenas uma piscadela. E esse piscar me fez sentir o mais miserável de todos os seres. Nunca antes eu tinha sentido aquele furacão de desprezo contido em um pestanejar. E ela se foi. Mas dentro de mim o desejo, que já fora de imediato despertado, começou a trabalhar na minha mente e corpo para conseguir o que queria. Olhei para seu corpo que se afastava e vi, na sua mão direita uma aliança. Esse detalhe me despertou mais ainda o desejo.

 

Guardei na mente as cores da roupa. A blusa amarela, fina, cobria uma outra, sem mangas, que se lhe apertava nos seios. A calça jeans delineava suas formas e acompanhava sua dança enquanto dava passos majestosos com o tênis branco. Na outra mão segurava uma garrafa de água mineral. Eu a segui.

Descobri onde morava, estudava e trabalhava. Fiquei alguns dias esperando ela passar por aquela praça e almocei algumas vezes no mesmo lugar que ela o fazia na sua hora de folga. Guardei na mente seus gestos, a forma como passava a mão pelo cabelo, como atendia o celular, como demonstrava no rosto as expressões de emoção. Então um dia, no seu caminho de onde estudava para casa, eu a abordei. Joguei todo o meu charme, como sempre costumei fazer, mas, e me dói escrever isso, não aconteceu nada. Ela parecia imune a mim. De todas as tentativas, ela sequer olhava-me nos olhos. E quando olhava era de soslaio, indiferente. Ela me contou de seus gostos, mas parecia que minha demonstração de interesse não a convencia, ou mesmo não fazia diferença. Eu sorria, manifestava sinais de interesse. Mas parecia jogar gotas de água no mar. E isso foi me frustrando.

Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. O que eu sentia passou de desejo para obsessão. Não parava de pensar nela. Todos os meus pensamentos trabalhavam diariamente numa nova investida. Então um dia eu conheci seu noivo. Aquilo fora ainda mais frustrante. Era um homem baixo, muito branco, muito magro e de óculos. Sua pele parecia ter sido lixada. Na cabeça, fios brancos já davam o ar de sua desgraça. Muito inteligente, pelo que pude ouvir de suas conversas, mas nem isso era o suficiente para me convencer que aquilo que ela chamou de noivo fosse melhor do que eu. E ela ria com ele. Eu pude ver, maldito seja, aquele brilho em seus olhos verdes quando ele estava junto. Mas isso nunca foi obstáculo para mim. Se eu a queria, eu a tiraria dele e o faria sofrer pela perda. O problema é que ela não estava dando espaço para eu concluir meu objetivo. Na melodia de minhas vontades, uma nota dissonante estava me incomodando.

Então eu passei a sentir algo que nunca na vida havia experimentado. Eu me senti impotente. Meus braços pareciam não alcançar mais certas distâncias.  A minha vontade, que sempre achei ser soberana, parecia agora curvar-se a algo maior que eu ainda não sabia dizer o que era, mas começava a me assustar. Eu parei de frente ao espelho, me encarando, perguntando o que estava acontecendo. Como poderia haver algo neste mundo que eu queria e não poderia ter? Fantasmas despertaram em meu interior e me fizeram perguntas sinistras, advindas dos meus mais profundos abismos. Aquilo era amor? Era isso que chamam de amor? Esse sofrimento de desejar algo e não ter? Não, não podia ser. Era loucura. Eu queria por querer. Depois a descartaria. Descartaria, não é? Ou aqueles olhos verdes me assombrariam pelo resto de minha vida se o fizesse? Olhos verdes. O que há com eles? Nunca me encararam. Nunca se fixaram nos meus. Por que então os sinto sobre mim? Por que os sinto dentro de mim? O que é essa névoa verde que me rodeia e me faz sentir nu? Eu olho para todos os lados e parece que estou sendo observado. São aqueles olhos verdes. Aquele desprezo encapsulado naquelas duas esferas cor de esmeralda. Seria um demônio? Talvez o diabo tenha se transformado numa mulher para me levar aos seu inferno. Talvez o inferno seja…oh não…aqueles olhos verdes estão lá, no inferno. Me observando. Sei que nunca te busquei, Deus, mas se ainda me ouves, livra-me deste inferno! Deus. Deus parece olhar para mim com seu ar de misericórdia. Oh não! Não! Deus tem os olhos verdes…!

Sim, meus amigos, eu quase enlouqueci. Ela era real. Ela sorria e tudo parecia mais leve. Mas ela não me dava atenção. Nada funcionava com ela. Eu me senti humilhado. Eu, que fiz tanto por amor somente a mim. Eu, que tive o que quis num estalar de dedos. Eu, o mestre em manipulações de todas as mentes. Pois nenhuma seria tão forte para permanecer de pé diante de mim. Sim, caro leitor, todas as mentes. Ou acha que você está excluído dentre elas? Sua mente é fraca. Você esperou uma semana para ler isso. Então abra bem seus olhos e leia: SUA MENTE É FRACA. Assim como a minha.

Minha derrocada foi uma mulher. Eu tive todas as que eu queria. Mas ela eu não podia tocar. Minhas palavras não surtiam efeito. Eu lançava-as para ela e pareciam água a evaporar num dia quente de verão. Usei todos os meus truques e a única coisa que consegui foi o senso de ridículo. Foi a frustração galopante que me acometia. Uma vergonha de mim mesmo que se fixou na minha carne.

E ela casou. Não que isso fizesse alguma diferença para mim. Nunca me existiram barreiras, sejam legais ou religiosas. Casamento até me excitava para meu desejo se consumar. Minha única barreira foi ela. E seus olhos verdes. Não conseguia mais trabalhar. Tinha até medo de ela me denunciar por perseguição. Ela sempre fora gentil. Me dispensava da forma mais educada possível. Eu, com fúria. Eu, com medo. Céus, estou enlouquecendo mesmo. Ergo, diante de tudo isso, me internei num hospital psiquiátrico. Fundo do poço. Lancei-me no meus mais profundo abismo. Até onde chega o ser? Ela me desprezava. E isso me dilacerava todos os membros, toda a alma. Me internei por conta própria. Talvez ali, recluso, eu pudesse esquecê-la. Talvez ali  livre de todas as mentes sãs, eu pudesse curar a minha. Ledo engano o meu. Você pode até achar exagero meu. Mas eu já te disse que sua opinião não me importa, certo? Me joguei de cabeça nessa nova ilusão. Enfermeiras, médicos, pacientes. Todos me obedeciam. E eu me amaldiçoei por isso.

Tudo era fácil. Hoje parecia mais fácil que antes. Mas de que adiantava se isso não funcionava com ela? De que adiantava ter tudo o que eu queria e que me cansaria rapidamente, essas coisas que eu possuiria por pouco tempo, se ela, a quem eu queria pela eternidade, não podia ter? Então decidi lhe enviar uma carta todo ano, no dia do seu aniversário. Me declarava, me derramava. Ela despertou em mim o que nenhuma outra pessoa havia despertado. Eu escrevia poemas. Eu tecia palavras românticas em cartas perfumadas. Eu, que pensei sequer haver um coração batendo no meu peito, retirei de mim mesmo as coisas mais belas que um humano pode dar a outro. Como algo belo poderia sair de alguém tão cruel? Não sei, mas lembro que alguém me disse que todo homem vira poeta quando está apaixonado. Escrevi as cartas mais sinceras. Mas eu não recebia respostas.

Eu convenci pessoas do hospital, responsáveis pelas cartas de todos, a me confirmarem que ela as recebia. Que não havia mudado de endereço, nem nada. Mas não vinham respostas. Mesmo assim eu não parei. Quanto tempo se passou? Dez anos. Por dez anos eu escrevi para ela. Durante dez anos eu fui o homem mais apaixonado que conheci. Sem sequer tê-la uma única vez em meus braços. O homem cruel e sádico que eu conheci, deu lugar a outra pessoa completamente diferente. Como se eu tivesse nascido de novo. Como se o monstro tivesse gerado um humano. Como se ela tivesse arrancado a pele morta de meu ego. Foi nesse dia, em que eu tive o meu primeiro encontro comigo, mesmo que percebi que nada valeu a pena. Que nada do que eu fiz, nenhum dos prazeres que eu tive, valeram a pena. E me arrependi amargamente.

Você sabe, leitor, o que é arrependimento? Já sentiu esse gosto amargo de mil cadáveres na sua garganta? Esse líquido viscoso, pútrido e ácido que desce para seu estômago, chamado orgulho, e escorre pelo seu interior clamando um arrependimento desesperado? Eu sei. E por longos dez anos eu senti isso todos os dias. É nesse momento que criamos esses castelos no ar. Uma frustrada tentativa de mostrar a nós mesmos que o poderia ter sido. Como se ao pensarmos “Ah, seu eu tivesse feito diferente.” fosse adiantar de alguma coisa.

O tempo é um carrasco. O passado é um rei sádico. Ele imprime na linha temporal toda a desgraça que nos acompanha para, quando desejar, nos atormentar com lembranças amargas. E eu nunca pude perdoar a mim mesmo.

Dez anos se passaram desde o último dia que a vi. E no término desse tempo, eu recebi uma carta sua. O destino e sua macabra ironia. Meu coração quase saiu pela boca. Coloquei o envelope no rosto, tentando sentir o cheiro, o perfume daquela que eu almejava. Minhas mãos tremiam. Não reconhecia meu corpo. Todos os sentimentos que nunca tive se expressavam através dele de uma forma que me assustava. Senti minha fraqueza, minha debilidade diante de tudo. Eu, que me achava acima de todos os seres,  agora percebia, por causa de uma mulher, a fragilidade da minha mente e da minha estrutura. Temi ler o que estava escrito. Talvez naquelas palavras estivessem todos os meus demônios esperando voar para o meu pescoço. Respirei fundo, como se fosse absorver todo o ar do mundo, e abri.

Era uma letra redonda, com certa tremulação nas hastes. Uma carta pequena que começava com um Querido, seguido de meu nome. As próximas linhas me tiraram o ar e só lembrei de respirar quando li a despedida.

“Querido…

Sei que deve lhe ser triste receber uma carta minha depois de tanto tempo que você me escreve. Temo que ache que sinto desprezo por suas palavras, mas não. Eu agradeço muito todo o seu carinho nas palavras que me enviou. Todas as declarações que me mandou e continuou mandando mesmo que eu não lhe desse resposta. Mas não posso mentir para alguém que tem tanto carinho por mim. Você sabe que amo outro homem. O mesmo homem com quem me casei e vivo até hoje. Jamais negaria isso.

Tenho suas cartas guardadas e ele sabe. Ele é muito compreensivo. Eu prezo muito o amor dele e por isso nunca te respondi. Talvez tenha sido um erro, pois assim devo ter alimentado esperanças. Lembro de suas tentativas em me conquistar, parecendo até entrar em depressão por não conseguir. Dizer que sinto muito, obviamente, não vai mudar nada, mas vou lhe dizer a razão de te responder agora. Falei com meu marido e ele concordou comigo que já era hora de te dar uma resposta. Não queria que fosse dessa forma, nem pela razão que lhe direi. Por favor, não pense que é para te fazer sofrer mais. Nem para que sinta pena de mim.

Eu tenho câncer.

Descobri há pouco tempo e desde então ele tem avançado e acredito, e escrevo isso com lágrimas nos olhos, que no dia em que você receber esta carta, eu já não estarei mais nesse mundo. Eu só queria que você soubesse que te li. Que tenho guardado comigo suas cartas na minha memória e no meu coração. Que senti realmente seu carinho nas palavras. Espero não ser cruel no que estou dizendo. Talvez em outra época poderíamos ficar juntos. Pode não parecer, mas gostei de você. Gostei da sua conversa e da sua companhia. Mas sempre via tristeza em seus olhos. Você sempre me pareceu forçar ser alguém que não gostaria de ser. Talvez tenha sido apenas impressão minha. Ou eu espero que seja. Mas sei que deixarei esse mundo tranquila por saber que pude te agradecer por isso.
Adeus, meu amigo. E obrigado por todo carinho.”
O que se seguiu após a leitura foi um ataque de fúria. Derrubei a mesa do meu quarto, a TV, rasguei a maioria de minhas roupas, vomitei e só não cortei meus pulsos com os cacos do espelho que soquei porque os enfermeiros vieram me acalmar da forma deles.
Meu contato nos correios me avisou que ela havia morrido no mesmo dia em que enviara a carta. Fiquei numa camisa de força por três dias. Minha vida inteira passou diante dos meus olhos nesses dias. Minha cabeça doía muito. Talvez resultado do turbilhão no meu cérebro. Após os três dias eu tentei me matar várias vezes. Todas tentativas infrutíferas. A impotência me tomara de um jeito tal que eu não sabia mais o que ou quem era. Então decidiram me colocar numa sala vazia, sem cantos, sem janelas, preso a mim mesmo. Sem nada que eu pudesse usar para tirar a própria vida. Mal sabendo eles que minha vida já havia sido tirada.
Hoje eu estou aqui digitando isso num teclado flexível cujo monitor ao qual se conecta está diante de mim separado por uma parede de vidro, sendo supervisionado por dois homens que parecem touros, e com as mãos algemadas, tremulas, tecendo todas as palavras que vocês acompanharam. Eu estou lúcido, acreditem. Ou não, tanto faz agora. Meu único desejo agora é sair deste corpo e ir, se há algo depois dessa vida, ao encontro da única pessoa que eu realmente amei nesse mundo.
Eu, que sempre tive tudo o que quis; eu, que tomava para mim tudo o que desejava, que consumia todos os recursos até não sobrar mais nada, descartando depois. Eu. Eu, que sempre me achei superior a todas as mentes. Condenado a passar o resto de minha vida sendo torturado pela lembrança de coisas que aconteceram e que não aconteceram. Sendo cruelmente atormentado não somente pelo passado,mas pelo futuro que um dia planejei e que nunca virá.
Eu, que desejava e possuía, desejei uma mulher e não a perdi, pois na verdade nunca a tive, mas agora estou aqui, desejando a morte e também não posso tê-la.
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