memento mori

solidao
Ele acordou, mesmo já estando com os olhos abertos.
A realidade bateu forte em seu rosto e suas garras arranharam-lhe a alma. O que sentiu no olho esquerdo foi uma lágrima brotar, escorrer na sua pele e morrer em sua boca. Um gosto salgado que logo tornou-se amargo e quase lhe fez vomitar. Esse sentimento o fez erguer a fronte e encarar a imagem à sua frente.
Pessoas choravam com cabeças baixas e lenços nas mãos em volta de um caixão cor marfim. A maioria ali tinha rostos conhecidos, mas ele parecia invisível para cada um. Então, se deteve no caixão. Sabia quem estava lá. Mas só agora, no exato momento em que sua mente por fim concebera a situação, é que sentiu um ardor no peito. Talvez algo perfurando-lhe a carne não fosse tão doloroso quanto isso que o mastigava por dentro e que parecia prestes a cuspir.
Como estava sentado, não podia ver dentro da abertura do caixão, mas a presença, mesmo sem vida, ainda fazia efeito sobre ele. De todas as pessoas no mundo, jamais imaginara que seria a sua mãe que estaria sendo velada diante de si. Refletiu, então, sobre a miséria e a brevidade da existência humana. Meras folhas secas sacudidas o tempo todo pelo vento, até desprenderem-se do galho e voarem sobre o abismo que temerosamente todos chamam de morte. Um suspiro de algum deus. O cuspir de repugnância de alguma entidade. Sim. Um cuspe. Tanto esforço para ser mais belo, mais inteligente, mais rico, mais feliz, nutrindo o desejo de que nada é suficiente para quem o suficiente não é o bastante para isso. Terminar do mesmo jeito que veio ao mundo: sem nada e só.

espera

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Eu acordei fazendo uma careta. Sei, pois é a primeira coisa que eu faço todas as manhãs, já que desperto com a maldita dor no estômago. O que eu tenho no estômago? Não sei. E não vou ao médico exatamente pra não saber. Mas ela passa rápido. Assim que eu levanto, em uns 10 minutos, estou bem novamente. Sei que isso não é desculpa pra não me tratar, mas sinceramente eu não estou ligando.
Levantei-me e curvei o corpo na pequena pia que fica ao lado da cama. Joguei água no rosto e encarei o espelho. Rugas. Várias linhas no rosto. Na cabeça, parcos cabelos grisalhos nas têmporas, dando espaço pra a careca reluzente. 52 primaveras, dizia a minha vizinha. 52 malditas primaveras eu carrego no corpo. Mas ele ainda funciona.
Vesti a calça e a camisa de botão. Abri um pouco a janela e vi o sol iluminar tudo. As pessoas, na rua, com caras mal humoradas, andavam apressadas. Sai e tranquei a porta. Cumpriria minha rotina andando dois quarteirões até a padaria onde eu sempre tomo café. No caminho cumprimentei e fui cumprimentado pelas mesmas pessoas de todos os dias. Incluindo as mesmas que eu sequer sabia quem eram.

vis-à-vis

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- Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher.

Eu disse a frase em tom médio, mas, em meio ao burburinho do bar, os quatro colegas de trabalho que bebiam comigo, ouviram claramente. Os rostos se voltaram para mim, enquanto eu bebericava a cerveja. Primeiro foram as bocas entreabertas. Depois os sorrisos tortos, os olhares indagadores e o entreolhar-se confuso.

- Como é? – perguntou o cara à minha esquerda, olhando para mim como se visse um fantasma.

Era engraçado ver em seus rostos uma expressão de falsidade. Eu sabia o que eles pensavam da minha esposa. Via a forma como a olhavam quando ela ia até o escritório me entregar algum documento. Como lobos famintos por carne fresca. Eu até ouvia algumas vezes os comentários baixos que faziam sobre a bunda dela, sobre a boca.

Não posso negar a beleza da minha mulher. Morena, alta, seios médios, mas firmes. Bunda arrebitada e pernas bem torneadas. Eu me sentia privilegiado. E sabia que muitos dos que trabalhavam comigo me invejavam. Mas eu nunca comentara nada semelhante com eles. Nos conhecíamos há muito tempo, mas mesmo assim, ao menos na minha frente, eles me respeitavam. Sempre fui calado e reflexivo. Foi uma surpresa para eles.

- Foi o que eu disse. Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher e queria convidar vocês para fazer o mesmo.

O cara à minha frente se engasgou. Os outros três, com sorrisos tortos e a mente confusa, olhavam pra mim perplexos. Eu podia ver, em suas mentes pequenas, os neurônios em euforia, escolhendo as palavras, analisando parcamente os detalhes a fim de não estragar nada. Eu ria por dentro. O que coloquei diante deles era muito para seus minúsculos cérebros.

- Deixa eu ver se entendi. – começou o cara à minha esquerda. – Você está nos convidando para comer a sua mulher?

Olhei para ele com uma frase na cabeça. “Parabéns. Você teve capacidade sozinho de entender isso?” Mas eu abstive disso. Confirmei com a cabeça e ele olhou para os outros. Percebi que ele se comunicava com o olhar, pedindo aos outros pra que deixassem apenas ele falar. Qualquer deslize, pensavam eles, e perderiam essa chance única. Sequer passou pela cabeça deles que eu estivesse blefando, tamanha era a vontade que lhes assomou.

o lamento de Susanna

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Era o terceiro dia que Susanna estava naquela cidade e a igreja abandonada sempre despertava sua curiosidade. Ela voltaria para casa em dois dias e seus olhos e a lente de sua câmera ansiavam em poder fotografar o interior daquele prédio.

Quando perguntou a sua tia, cuja casa lhe estava servindo de lar naqueles dias, ela desconversou e disse que lá era um lugar proibido. Isso só fez a vontade de Susanna entrar lá, crescer mais e mais.
Neste dia, quando o sol estava prestes a se por ela caminhava do lado da igreja. A câmera na mão, um vestido esvoaçante e um brilho no olhar que poucas vezes lhe animava o semblante. A rua estava deserta e sua cabeça rapidamente começou a trabalhar. Havia um nicho no muro dos fundos; ela correu até ele e,com um pouco de dificuldade conseguiu passar, mas não sem arranhar sua perna e o lado de sua câmera.

Musgos, trepadeiras e todo tipo de erva daninha invadiam cada canto da fachada e dos muros do prédio. Ela ouviu pequenos animais correrem ante suas passadas. Rodeou o lugar e subiu a escadaria que dava para a porta principal. Para sua surpresa a grande porta estava entreaberta. Parecia que tudo aquilo fora abandona às pressas. A porta rangeu quando ela empurrou e uma camada de poeira caiu sobre si.

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a casa de bonecas

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Era outono e as folhas se arrastavam pelo asfalto. Tarde da noite, mas tudo ainda estava com uma cor acinzentada. O casal e suas duas filhas saíram do carro parado no meio da estrada e começaram a conversar.
- O que vamos fazer William? O carro morreu mesmo?
- É o que parece. Precisamos de um telefone. O celular não tem sinal – ele falou olhando em volta.
- Ali pai. – a filha mais velha, Kamila, apontou para uma tênue luz vinda de uma casa a alguns metros dali.
- Vamos lá. – disse o pai abrindo o porta-malas e retirando algumas coisas.
Eles se aproximaram da casa que não tinha muros. A única casa naquele deserto. Uma casa antiga, mas que se erguia imponente. A luz que provinha dos cômodos da casa parecia dançar.
- Parece que não tem luz, querido. – disse Alicia, a mulher. – E não está muito tarde para incomodarmos?
- Deve ter algum telefone pelo menos. E você não quer ficar dentro do carro a noite toda né?
Elisa, a filha mais nova coçava os olhos com sono.
Eles se aproximaram da porta e William bateu três vezes. Passos foram ouvidos se aproximando até que a porta abriu com um rangido. Uma senhora pequena e de cabelos bastante brancos apareceu e ajeitou seus óculos para ver melhor os visitantes.

requiescat in pace

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Eu, Samuel Albuquerque, 30 anos, em pleno gozo de minhas faculdades mentais, venho, por meio deste, confessar por escrito que hoje, às 15:45, matei a pessoa mais importante da minha vida.
Nosso relacionamento durou muito tempo. Tanto que poderia ser considerado uma vida, se pode se chamar de vida o que tivemos juntos. Mas foi a impaciência que permeou nossos dias. Foram as bruscas mudanças de humor que fizeram as coisas saturarem. Não nego que tive bons momentos, mas todos os dias de profunda mágoa e angústia suprimiam as risadas e os fugazes sentimentos de felicidade. Agora só havia silêncio. O corpo, a alguns metros de mim, permanecia com os olhos abertos, sem vida. Os lábios roxos, a pele pálida.Foi meu limite. E não foi apenas um motivo. Foi a soma de todos eles. Eu sentia minha individualidade ser invadida. Sentia que minha liberdade estava ameaçada. Sua companhia já não me dava a mesma alegria que em tempos áureos. E o ciúme parecia enlouquecedor. Não suportava me ver com outra pessoa. Não importava o sexo. Preferia me ver solitário a acompanhado de quem quer que seja, mesmo que eu estivesse me sentindo bem. Foi então que sua presença começou a me incomodar. Não sentia mais vontade de conversar. Não sentia mais vontade de sair, comer, beber. Os dias se arrastavam, gris e enfadonhos. E se eu pedia um tempo para pensar, eu ouvia uma enxurrada de reclamações, lamentos, críticas e desistia.