de perder o que não se tem – parte 2

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No seu segundo contato comigo, você vai me odiar.

Mas pelas mesmas razões do primeiro. Pela forma como demonstro o quanto eu já lhe conheço. Por causa do meu olhar que já desnuda tua alma. Mas não estou aqui dessa vez para falar de um encontro contigo. Estou aqui para falar de meu primeiro encontro comigo mesmo. E de toda a desgraça resultante disso.

Naquele dia cinza, naquela praça barulhenta, eu a vi. Não, não aconteceu nada do que os românticos possam imaginar. As cenas não ficaram em câmera lenta, nem senti o perfume suave de rosas, ou fogos de artifício. Muito menos um novo brilho nas cores. A vida seguiu seu curso enfadonho e lastimante. Mas claro que uma coisa me marcou. E eu não consigo esquecer essa imagem, mesmo tendo passado já tanto tempo.

Ela passou pela minha frente e seus olhos, lindos e verdes olhos, me ignoraram. Pousaram sobre mim por alguns milésimos de segundo. Mas foi o suficiente para eu sentir o desdém. Como se tivesse visto o nada e nada tivesse acontecido. Como as fezes que o gato olha e enterra, indiferente. Apenas uma piscadela. E esse piscar me fez sentir o mais miserável de todos os seres. Nunca antes eu tinha sentido aquele furacão de desprezo contido em um pestanejar. E ela se foi. Mas dentro de mim o desejo, que já fora de imediato despertado, começou a trabalhar na minha mente e corpo para conseguir o que queria. Olhei para seu corpo que se afastava e vi, na sua mão direita uma aliança. Esse detalhe me despertou mais ainda o desejo.

a fome

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Eu a amei com algo muito maior que o próprio amor. Não havia definição. Eu necessitava dela mais que qualquer coisa no mundo. Era maior que paixão, maior que possessão, maior que obsessão. Era, e assim eu passei a chamar, fome.
A conheci numa palestra sobre mídias sociais. Eu, engenheiro em aplicativos de computação. Ela, web designer. Aqueles cabelos vermelhos e aquela tatuagem nas costas logo me chamaram a atenção. Era amiga de uma amiga minha, então a apresentação foi fácil e a atração foi rápida. No dia seguinte eu e ela estávamos tomando café depois de uma sessão de cinema. Tínhamos muito em comum e a conversa fluía naturalmente, com interesses que ambos compartilhavam. Passamos a nos encontrar com mais frequência. Nos sentíamos adolescentes apaixonados. Ríamos muito juntos e a cada vez que ela parecia se irritar com algo que eu fazia, prontamente eu tentava consertar a situação. A enchi de presentes, de mimos e também inflei seu ego. Então eu vi uma fome dentro de mim crescer e se tornar insaciável.
Logo dei um jeito de morarmos juntos. Ela deixou a casa da mãe e passamos a desfrutar de um apartamento só nosso, com vista para a praia. Eu a convenci a deixar o emprego, já que meu salário sustentava tranquilamente os dois e, como eu trabalhava em casa, teríamos mais tempo juntos. Claro que ela adorou a ideia. Eu, mais ainda. Nossos dias passaram a ser a realização de um sonho para mim. Deitava e acordava com ela do meu lado. Seu cheiro, seu gosto, sua presença. Tudo nela me encantava. Mas eu comecei a ver que isso não era suficiente. Transávamos todos os dias, quase todo o tempo. Ela era fogosa e eu, um tarado. Precisava sentir sua pele, seu gosto, seu interior úmido e macio. Batizamos praticamente todos os cômodos e móveis do apartamento. Ela era incansável, mas eu era mais ainda. Por vezes ela dormiu em cima de mim de exaustão, no meio da transa, mas eu não me importava. A tinha ali em meus braços. Pra sempre.

revelações

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Se tem uma coisa que eu aprendi nesses setenta e cinco anos foi que não importa a idade, distância, ou mesmo a quantidade de mágoa que nos causou. Nosso filho sempre será nosso filhinho. Mesmo que a quantidade de rugas em seu rosto seja proporcional ao seu. Mesmo que os cabelos brancos dele não estejam encobertos por tintura, como os seus. Não importa quantas palavras ele pronunciou e veio até mim como setas pontiagudas que propagaram a mágoa profunda dentro de mim. Não importa.
E das maiores dores dessa vida, creio que essa se sobressaia a todas que eu já tive, está a de ver ou ouvir seu filho chorar, em qualquer idade, e sentir sua impotência ante isso. E eu senti. Eram três horas da manhã quando fui acordado, num pulo, pelo meu telefone tocando. A voz do outro lado, embargada, tropeçando nas palavras, era do meu filho, quarenta e cinco anos, que morava dois bairros próximo ao meu. Das palavras que eu consegui compreender, ele queria conversar comigo, pessoalmente, então perguntou se eu estaria em casa pela manhã. Então ele disse que viria bem cedo para falar comigo sobre algo muito importante e que o estava perturbando. Tentei adiantar o assunto, mas ele insistiu que pessoalmente seria melhor, então o acalmei e coloquei o fone no gancho. Mesmo preocupado, meus ossos cansados me fizeram adormecer rapidamente.

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Meu sonho sempre foi amar e transar com a mesma pessoa.
Eu ouvi a voz dele naquele tom airoso vindo em minha direção, sussurrando meu nome. Seus passos silenciosos pelo corredor traziam-no para mim com aqueles olhos negros já desejando o meu corpo. Com pressa, ele nos jogou para dentro do almoxarifado e trancou a porta. Colou a boca na minha e seu corpo começou a me falar coisas que suas palavras não podiam. Ele apertou-me o seio direito e eu agarrei seu cabelo grisalho enquanto vasculhava sua boca com a língua. Ríctus cujo manancial me deleitava. Me beijava com tanto desespero que parecia querer cravar sua alma na minha.
Mais e mais sua volúpia emergia e buscava me afogar. Ouvi sair de seus lábios resíduos de palavras obscenas enquanto nossas línguas dançavam juntas. Ele me nomeou e eu senti, na sua língua, o gosto que soava o meu nome. Ele colocou a mão dentro da minha blusa e agarrou minhas costas, colocou a boca no meu pescoço e começou a chupar um nada que, na verdade, era um tudo que aspirava. Meus mamilos, intumescidos com promessas e ganas esperançosas, já me mostravam sob a blusa. Apertou seu corpo contra o meu e me olhou nos olhos. Aqueles negros resíduos famintos de voluptuosidade. O versejar de nossos corpos não suportaram os anseios. Eu abri sua calça e, enquanto tentava engolir sua língua sedenta, circulei seu membro com os dedos. Aquele pedaço de carne que podia, à menor excitação, tomar outra dimensão anatômica, pulsou na minha mão, no afluxo de sangue em seu interior. Sua mão buscava debaixo da minha saia a fonte de onde eu já jorrava. E encontrou.

espera

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Eu acordei fazendo uma careta. Sei, pois é a primeira coisa que eu faço todas as manhãs, já que desperto com a maldita dor no estômago. O que eu tenho no estômago? Não sei. E não vou ao médico exatamente pra não saber. Mas ela passa rápido. Assim que eu levanto, em uns 10 minutos, estou bem novamente. Sei que isso não é desculpa pra não me tratar, mas sinceramente eu não estou ligando.
Levantei-me e curvei o corpo na pequena pia que fica ao lado da cama. Joguei água no rosto e encarei o espelho. Rugas. Várias linhas no rosto. Na cabeça, parcos cabelos grisalhos nas têmporas, dando espaço pra a careca reluzente. 52 primaveras, dizia a minha vizinha. 52 malditas primaveras eu carrego no corpo. Mas ele ainda funciona.
Vesti a calça e a camisa de botão. Abri um pouco a janela e vi o sol iluminar tudo. As pessoas, na rua, com caras mal humoradas, andavam apressadas. Sai e tranquei a porta. Cumpriria minha rotina andando dois quarteirões até a padaria onde eu sempre tomo café. No caminho cumprimentei e fui cumprimentado pelas mesmas pessoas de todos os dias. Incluindo as mesmas que eu sequer sabia quem eram.