memento mori

solidao
Ele acordou, mesmo já estando com os olhos abertos.
A realidade bateu forte em seu rosto e suas garras arranharam-lhe a alma. O que sentiu no olho esquerdo foi uma lágrima brotar, escorrer na sua pele e morrer em sua boca. Um gosto salgado que logo tornou-se amargo e quase lhe fez vomitar. Esse sentimento o fez erguer a fronte e encarar a imagem à sua frente.
Pessoas choravam com cabeças baixas e lenços nas mãos em volta de um caixão cor marfim. A maioria ali tinha rostos conhecidos, mas ele parecia invisível para cada um. Então, se deteve no caixão. Sabia quem estava lá. Mas só agora, no exato momento em que sua mente por fim concebera a situação, é que sentiu um ardor no peito. Talvez algo perfurando-lhe a carne não fosse tão doloroso quanto isso que o mastigava por dentro e que parecia prestes a cuspir.
Como estava sentado, não podia ver dentro da abertura do caixão, mas a presença, mesmo sem vida, ainda fazia efeito sobre ele. De todas as pessoas no mundo, jamais imaginara que seria a sua mãe que estaria sendo velada diante de si. Refletiu, então, sobre a miséria e a brevidade da existência humana. Meras folhas secas sacudidas o tempo todo pelo vento, até desprenderem-se do galho e voarem sobre o abismo que temerosamente todos chamam de morte. Um suspiro de algum deus. O cuspir de repugnância de alguma entidade. Sim. Um cuspe. Tanto esforço para ser mais belo, mais inteligente, mais rico, mais feliz, nutrindo o desejo de que nada é suficiente para quem o suficiente não é o bastante para isso. Terminar do mesmo jeito que veio ao mundo: sem nada e só.