as cinzas

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Ele detestava o sol. Para ele aquilo não tinha serventia alguma. Trazia apenas calor e queimaduras a sua pele. Além do clarão que lhe dava dor nos olhos; uma dor parecida com a que lhe causavam as cores das flores nos jardins onde ele passava caminhando. Preferia a chuva. Menos quando ela batia na sua janela. E também não gostava quando pingos caiam na sua cabeça, nem quando formava poças de água que o faziam molhar os pés. Pensando bem, ele também não gostava da chuva. Na verdade preferia o tempo nublado. Sem sol, sem chuva. Apenas aquele tom cinza que preenchia de melancolia todo o mundo. Ele gostava disso. Bem, pelo menos até agora.
           Aquela era uma manhã cinza, exatamente daquelas que o agradavam. Havia poucas pessoas na rua. Ele não gostava muito de pessoas. Preferia ficar em casa longe delas, mas seu médico o aconselhara a caminhar todos os dias. A idade já lhe alcançara. Sete décadas é tempo suficiente para você enjoar e cansar de tudo. No principio pensou em caminhar durante a madrugada, mas depois que o vizinho passou a querer acompanhá-lo no mesmo horário ele desistiu e resolveu caminhar exatamente na hora em que o vizinho estava no trabalho. Como não tinha escolha a não ser caminhar onde pessoas também caminhavam, ele, ao ver alguns jovens usando fones de ouvido enquanto iam para a escola, teve a mesma ideia e comprou os seus junto com um mp4 usado para ouvir a música que ele mais amava: a erudita. Na verdade ouvir música não era a única razão para ele usar os fones. Eles também serviam para não dar atenção para as pessoas na rua falando de suas vidas medíocres. Fazia sempre uma expressão de alienação para que as pessoas não o parassem para pedir informações. Noventa por cento das vezes dava certo.