anime mea

in_the_mirror_by_aliceindeadland-djs90g
Marília sentiu a lâmina fria encostar no seu pescoço e um arrepio subiu-lhe pelo corpo desde o dedão do pé até a ponta mais dupla do seu cabelo. Uma respiração forte e adocicada batia na sua orelha, vinda de quem pertencia a mão que segurava a faca contra sua pele. Estavam diante de um espelho e ela pôde ver aqueles olhos grandes, insanos, lhe encarando por trás, com um sorriso macabro. Os olhos amendoados percorriam seu corpo enquanto ofegava. Marília engoliu em seco e encarou-a com os lábios trêmulos.
- Por que razão você tá fazendo isso?
A mulher nas suas costas criou rugas na testa. Abriu um sorriso maior e ficou em silêncio.
- Que mal eu fiz pra você? – questionou Marília.
- Que mal você me fez? Que mal você me fez? Você é o mal na minha vida.
- Mas o que eu fiz?
- Tecnicamente, você nasceu.
- Isso é algum tipo de brincadeira?
- Parece brincadeira pra você?

memento mori

solidao
Ele acordou, mesmo já estando com os olhos abertos.
A realidade bateu forte em seu rosto e suas garras arranharam-lhe a alma. O que sentiu no olho esquerdo foi uma lágrima brotar, escorrer na sua pele e morrer em sua boca. Um gosto salgado que logo tornou-se amargo e quase lhe fez vomitar. Esse sentimento o fez erguer a fronte e encarar a imagem à sua frente.
Pessoas choravam com cabeças baixas e lenços nas mãos em volta de um caixão cor marfim. A maioria ali tinha rostos conhecidos, mas ele parecia invisível para cada um. Então, se deteve no caixão. Sabia quem estava lá. Mas só agora, no exato momento em que sua mente por fim concebera a situação, é que sentiu um ardor no peito. Talvez algo perfurando-lhe a carne não fosse tão doloroso quanto isso que o mastigava por dentro e que parecia prestes a cuspir.
Como estava sentado, não podia ver dentro da abertura do caixão, mas a presença, mesmo sem vida, ainda fazia efeito sobre ele. De todas as pessoas no mundo, jamais imaginara que seria a sua mãe que estaria sendo velada diante de si. Refletiu, então, sobre a miséria e a brevidade da existência humana. Meras folhas secas sacudidas o tempo todo pelo vento, até desprenderem-se do galho e voarem sobre o abismo que temerosamente todos chamam de morte. Um suspiro de algum deus. O cuspir de repugnância de alguma entidade. Sim. Um cuspe. Tanto esforço para ser mais belo, mais inteligente, mais rico, mais feliz, nutrindo o desejo de que nada é suficiente para quem o suficiente não é o bastante para isso. Terminar do mesmo jeito que veio ao mundo: sem nada e só.