revelações

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Se tem uma coisa que eu aprendi nesses setenta e cinco anos foi que não importa a idade, distância, ou mesmo a quantidade de mágoa que nos causou. Nosso filho sempre será nosso filhinho. Mesmo que a quantidade de rugas em seu rosto seja proporcional ao seu. Mesmo que os cabelos brancos dele não estejam encobertos por tintura, como os seus. Não importa quantas palavras ele pronunciou e veio até mim como setas pontiagudas que propagaram a mágoa profunda dentro de mim. Não importa.
E das maiores dores dessa vida, creio que essa se sobressaia a todas que eu já tive, está a de ver ou ouvir seu filho chorar, em qualquer idade, e sentir sua impotência ante isso. E eu senti. Eram três horas da manhã quando fui acordado, num pulo, pelo meu telefone tocando. A voz do outro lado, embargada, tropeçando nas palavras, era do meu filho, quarenta e cinco anos, que morava dois bairros próximo ao meu. Das palavras que eu consegui compreender, ele queria conversar comigo, pessoalmente, então perguntou se eu estaria em casa pela manhã. Então ele disse que viria bem cedo para falar comigo sobre algo muito importante e que o estava perturbando. Tentei adiantar o assunto, mas ele insistiu que pessoalmente seria melhor, então o acalmei e coloquei o fone no gancho. Mesmo preocupado, meus ossos cansados me fizeram adormecer rapidamente.

lacrimosa

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“Ser ou não ser… Eis a questão. 
Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. 
Morrer… dormir… dormir… Talvez sonhar…”  Hamlet, Ato III, cena I

***
Você está acordado?
Para você essa pode parecer uma pergunta idiota, já que está lendo isso. Para mim não. Desde criança eu tenho certa dificuldade em discernir quando estou acordado ou dormindo. Minha mãe, em sonho, me pedia para fazer algo e no dia seguinte, tendo executado sua ordem onírica, ela reclamava, pois não tinha pedido tal coisa de verdade e até tinha atrapalhado-a. Na escola, quando meus professores passavam lição de casa, eu sonhava que fazia e acreditava tão piamente nisso que no dia seguinte ia para a escola com a lição por fazer, pois nem abria o caderno de tão convencido que estava de que ela estava pronta. Para mim, tudo nos sonhos era tão real quanto fora deles.
Faltei a vários compromissos na minha fase adulta e ainda falto, por pensar ter ido quando na verdade foi apenas um sonho. As pessoas passaram a não confiar em mim, pois se me diziam algo, nunca sabiam se eu faria na vida real ou num sonho. Eu procurei ajuda, fiz tratamento, mas nada deu resultado. Tive de me acostumar a essa vida espalhando pela casa bilhetes, despertadores, agendas eletrônicas, tudo o que pudesse me orientar para saber se estava acordado ou não e quais deveres eu estava ainda por concluir. Ainda hoje, eu vivo uma vida difícil.
Consegui me aposentar devido a essa minha dificuldade bem cedo. Atualmente eu trabalho na livraria de um velho amigo que, compreendendo minha situação e não querendo que eu vivesse solitário em casa, me deixou ajudá-lo, o que me fez muito bem. Aparentemente a rotina deu uma aliviada no meu problema e poucas vezes tive dificuldade com essa questão de não saber se estou dormindo ou acordado na livraria. Nem os livros sobre sonhos na sessão exotérica me ajudavam. para mim eles eram rasos demais para alguém com tanta intimidade com os sonhos. Mas claro que isso não durou muito tempo. Pois foi nesse lugar que eu a conheci.